terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Rocky Balboa

"O mundo não é um mar de rosas; é um lugar sujo, um lugar cruel, que não quer saber o quanto você é durão. Vai botar você de joelhos e você vai ficar de joelhos para sempre se você deixar. Você, eu, ninguém vai bater tão forte como a vida, mas não se trata de bater forte. Trata-se de quanto você aguenta apanhar e seguir em frente, o quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando. É assim que se consegue vencer.

Agora se você sabe do teu valor, então vá atrás do que você merece, mas tem que estar preparado para apanhar. E nada de apontar dedos, dizer que você não consegue por causa dele ou dela, ou de quem quer que seja. Só covardes fazem isso e você não é covarde, você é melhor que isso."

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Face

Como eu tinha retirado esse texto (já modificado) do blog, vou retornar com o mesmo. Primeira coisa que escrevi, em 2009.

Bjonaomeliga

FACE

"Ao acordar, com a cabeça estourando – provavelmente ressaca por ter bebido muito vinho.... ele realmente acreditava que a bebida tinha efeitos afrodisíacos – sentou do lado direito da cama. Olhou para o lado e sua esposa estava lá, encoberta pelo edredom. “Nunca mais eu bebo!!!!!!!” pensou, cinicamente. Levantou-se, muito devagar para que seus tímpanos não explodissem, e foi ao banheiro. Lavou o rosto, com vergonha de olhar para o espelho. Tentou se lembrar do rosto de sua esposa, e a lembrança demorou a chegar... este foi o primeiro sinal. Escovou os dentes, ainda sem olhar para sua face – se olhasse sentiria vergonha: os olhos com uma coloração vermelha-amarelada, olheiras profundas, pele pálida e ressecada... típico para uma pessoa de ressaca, porém não era somente isso... havia também a superfície de seu rosto... ainda havia uma pessoa ali.
Foi à cozinha preparar seu café, mas antes, vestido apenas de cueca, foi ao encontro de sua esposa, a única pessoa que ele realmente amava, e lhe deu um beijo na testa. A mulher respondeu com um sorriso, puxando o edredom para perto de si, e um gemido como quem diz: “Hum, deixa eu dormir mais um pouco, meu bem!!!” Ele sorriu e nesse momento acreditou que sim, o amor pode existir e existe. Acreditou que o ser humano, ou ele próprio, podia confiar noutro incondicionalmente. E isto o alegrou.
Chegando à cozinha, ligou a TV para ouvir o noticiário. Escutou o presidente falando que o país iria sair da situação econômica crítica que se encontrava, que não haveria problemas. Pensou consigo: “Filho da puta, não tem vergonha nenhuma na cara!!!!” Ele não imaginava o quanto este pensamento, a princípio ingênuo, seria tão real.
Foi ao quarto, se vestiu e dando outro beijo em sua esposa saiu para o trabalho. De carro, observando os outdoors ficou pensando: “Quanta gente trabalha mal... todas as rostos estão desfocados!” Este era o segundo sinal. Chegando ao serviço não notou nada de estranho, ele sempre desviava o olhar das pessoas. Porém, ao encontrar com sua secretária teve seu primeiro surto. O rosto da mulher não somente se encontrava desfocado, mas totalmente desfigurado. Após o susto inicial, visível para todos que estavam ao redor, ele perguntou: “O que aconteceu com você? Quem te bateu? Vá ao médico AGORA!!!!!” Sem entender o porquê a secretaria perguntou: “Mas por que doutor? Estou normal, nada aconteceu comigo?” Ele entrou para seu escritório rapidamente, encharcado de suor, e baixou sua cabeça sobre os braços, pedindo para que ninguém o incomodasse.
Logo após sua entrada no escritório, sua secretária começou a falar com as outras pessoas: “Sim, ele é louco. Cumprimenta, é uma pessoa gentil. Mas não me dá aumento nenhum e ainda por cima fica dando em cima de mim.” A secretária apenas dizia que seu chefe a cantava para que ela ganhasse ‘elogios’ dos outros funcionários. Mais duas pessoas tentaram entrar em seu escritório: seu subordinado direto – que tinha compromissos irremediáveis a respeito da empresa, e puxa-saco de mão cheia – e seu chefe, que ficou preocupado pela reação do subordinado e da secretária. Além disso, seu chefe era uma pessoa extremamente arrogante e mesquinha, o que deixava nosso herói, na maior parte das vezes, furioso.
Ele decidiu voltar para casa depois que todos foram embora... a última vez que olhou para o rosto de sua secretária ele teve ânsias de vômitos.... várias. Foi para casa, evitando olhar para os outdoors, pois eles pareciam sempre mais desfigurados. As pessoas nos carros, estas também se aparentavam desfiguradas, com os rostos como se tivessem sido alterados num programa de computador. Apenas as crianças, a maior parte delas pelo menos, se aparentavam normais, com rostos, faces, de pessoas.... PESSOAS.
Chegando em casa hesitou em olhar para o rosto de sua esposa e aos prantos a abraçou. Ela sem entender tentou acalmá-lo, fazendo carinho e buscando um olhar para que compreendesse. Porém... nada. E assim se passaram longuíssimos 5 minutos, com ambos chorando compulsivamente. Após sua esposa implorar para que ele dissesse, ele olhou e viu: a mulher mais linda, o rosto mais lindo, a face mais linda, o corpo mais lindo, os seios mais lindos. Chorando e rindo ao mesmo tempo ele a beijou, como se fosse à primeira vez, um beijo longo, quente, apaixonado. E ali, onde estavam se amaram.
A noite que se seguiu depois do êxtase de gozo de ambos foi tranqüila. Dormiram como pedra. Na manha seguinte, ele acordou como de costume, olhou para sua esposa, que se encontrava coberta pelo edredom. Pensou seriamente que o dia anterior foi um sonho. Foi ao banheiro, e mesmo tendo a certeza do sonho, vacilou ao olhar para o espelho. Olhou e lá estava ele, com um rosto muito melhor que o do dia anterior. Neste dia não beijou sua esposa antes de preparar o café.
Tomou seu café como de costume, foi ao trabalho e novamente os outdoors estavam todos embaçados e desfigurados. Suando feito um porco devido à alucinação ele chegou ao trabalho e viu que todos estavam desfigurados. As faces horríveis, como que se despedaçassem da cabeça... a pele desfigurada, o nariz torto, se confundindo com o espaço onde antes devia estar a boca. No lugar da testa estava a boca... mas não uma boca normal, uma boca grande, com vários dentes, como se fosse a boca de um tubarão. Os cabelos estavam normais, apenas a feição estava diferente. Assustado e suando horrores, ele correu para sua sala, gritando para sua secretária – que apontava para ele e fazia gestos que ele estava louco – para não deixar ninguém entrar. Pediu dispensa do seu chefe, que muito a contragosto o deixou ir para casa.
Chegando a sua casa, indo numa mistura de velocidades, olhou para sua esposa e a viu! Gritou e chorou novamente, e ela, sempre cúmplice, chorou ao ver seu amado em tal situação. Ele pediu licença e foi tomar banho. Após um banho demorado, implorou que fosse deixado a sós. Foi ver televisão, e o espanto não foi o mesmo: todas as pessoas se encontravam desfiguradas. Tanto políticos, quanto pessoas entrevistadas da rua, quanto os apresentadores. E todas da mesma forma: o rosto completamente desfigurado, como que por alguma forma de manipulação informatizada. Ficou sozinho, vendo TV, por três dias.
Sua esposa tentava fazer com que ele comesse, mas ele apenas pegava um biscoito aqui, outro acolá. Estava ‘entretido’ demais, vendo todos os canais de TV que podia ver, e comparando as faces. Todas desfiguradas. Para ele, apenas dois rostos se encontravam normais: o dele e o de sua esposa.
E assim nosso herói passou por três meses, isolado em sua sala de TV, vendo os programas... todos... insistindo que tudo aquilo era paranoia de sua cabeça. Ele tentou ir ao médico, que apenas lhe indicou medicamentos contra alucinações e calmantes, que de absolutamente nada serviram. Os psicólogos muito menos, não conseguiam explicação nenhuma para sua ‘paranoia’.
Seus amigos se afastaram, depois desses primeiros três meses mais nenhum aparecia, mesmo por que ao vê-los nosso herói os xingava e pedia, não ele não pedia... ele gritava e obrigava, que todos saíssem de sua casa, com seus rostos desfigurados. E nesses três meses ele concluiu algo: apenas uma pessoa merecia sua confiança, apenas uma pessoa era de respeito, apenas uma possuía caráter, apenas uma se preocupava realmente com o próximo, apenas uma (ou duas?) sentiam realmente o que era amar. Esta pessoa era a única que ele não via o rosto desfigurado: sua esposa. E isto fez com que ele a amasse ainda mais.
Um ano se passou. Sua esposa após os 10 meses da ‘doença’ do marido, começou a se afastar, a se tornar uma pessoa triste e agoniada. E nosso herói ainda a via, e isso ainda alegrava os dois. Ou pelo menos era isso que ele pensava. Um belo dia, um ano após sua repentina ‘alucinação’, nosso herói decidiu passear, pois sua esposa estava demorando muito tempo para trazer os mantimentos. Este tipo de atraso havia começado há uns dois meses, tempo em que o rosto da esposa começou a se desfocar.
Andando pela vizinhança, evitando os vizinhos, e estes o evitando, ele observou sua esposa, no supermercado, abraçada com um homem. Mas ela não estava somente abraçada, pedindo ajuda, ou conselho, e o homem não a estava consolando pelo flagelo do marido. Eles estavam se beijando, se abraçando, se amando. O que mais nosso herói podia fazer a não ser chorar?
Voltando para casa, com todas estas exclamações na cabeça, nosso herói chegou à uma bela conclusão. Foi ao banheiro, onde ele olhara a primeira face há um ano atrás, a sua própria face. Nas mãos uma faca, grande, afiada, pontiaguda. Olhou para seu rosto, para sua face. E sorriu... fincando a faca no peito. Menos uma face no mundo."

Viagem

Esse também eu tinha tirado do blog, o filho pródigo torna à casa...

VIAGEM

"Ela acordou com o senhor que estava ao seu lado pedindo licença, provavelmente para ir ao banheiro. Notou que ainda era dia, porém, com o nevoeiro denso que se encontrava do lado de fora era impossível ver qualquer coisa. As janelas estavam opacas para quem observava de dentro, tanto pelo nevoeiro quanto pelo fato dos vidros estarem embaçados. Ao retornar o senhor disse:

- Olá, acho que perdi o sono. Tudo bem com você?
Ela pensou consigo mesma “Vai começar a ladainha...” e respondeu:
- Sim, tudo bem. Também acho que perdi o sono.
- Estranho o ônibus não ter feito nenhuma parada ainda, não? Perguntou o senhor.
- Sinceramente não reparei, meu sono é pesado, se houve alguma parada não percebi.
- Teria percebido comigo pedindo passagem.
- É mesmo – respondeu a mulher num tom obviamente irônico – então não houve paradas.
- Desculpe te incomodar, vou tentar ficar quieto.
- Não se preocupe.
O homem se calou, mas ambos não conseguiram dormir. Estavam presos em seus pensamentos mais profundos, por motivos que ficaremos sabendo. No momento, basta descrevermos o ônibus em que se encontravam. Na direção se encontrava um senhor pequeno, sério, e calado. Este não pensava em nada, tinha apenas seu objetivo: levar as pessoas ao seus destinos. Os passageiros eram 8: a mulher e o homem citados anteriormente, ela solteira, de vida fácil e um tanto quanto ranzinza, ele casado, falante, engraçado e com saudade de seus dois filhos – ambos se encontravam no meio do ônibus, por assim dizer; logo ao lado deles estava um casal de idosos; duas fileiras à frente se encontrava um rapaz solteiro; ao lado dele uma mulher e sua criança; bem mais atrás se encontrava um outro homem, magro e pálido, com aspecto triste. Esta viagem é sobre a vida destas oito pessoas.
Ela olhou para o relógio, mas ele não estava funcionando.
- Malditas baterias, se o mesmo fosse de corda não haveria esse problema.
Perguntou as horas para o senhor, mas este não tinha relógio. “Viagem que não acaba, e ainda não paramos para esticar as pernas.” Pensou ela, já entediada. Viu que uma pequena agitação começava a aparecer no interior do ônibus, provavelmente pelo motivo da falta de paradas. A criança começava a resmungar quando o rapaz foi falar ao motorista. Alguns minutos depois ele voltou, pois mesmo sem relógios e maquinas podemos pensar no tempo passando, e talvez este seja o verdadeiro sentido de tempo... talvez. O rapaz então disse:
- É outro motorista. Fizemos uma parada rápida, não me lembro, estava dormindo. Este não conversa, apenas dirige. Muito estranho o caminho que ele esta seguindo, e o nevoeiro lá fora está muito, mas muito denso. Acho que o motorista pegou um caminho secundário, vou reclamar junto à empresa assim que chegar em casa.
Ela olhou de novo para fora, e o rapaz estava certo. O nevoeiro continuava La, deixando opaca a visão para o exterior. E assim os 8 passageiros permaneceram, todos acordados, durante trinta minutos. O leitor pode se perguntar como podemos medir a passagem de tempo neste caso, onde nenhum relógio está funcionando, e dai podemos perguntar: como você mede, ou sente, a passagem do tempo? Estes trinta minutos pareceram uma eternidade para todos os passageiros, e quando nenhum deles conseguia mais se conter, um diálogo começou.
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- Pois é...
- Pois é... tem chovido...
- Acho estranha essa neblina. Muito densa. E este motorista que o rapaz ali da frente falou que trocaram... muito estranho, não percebi nada durante a viagem.
- É... a neblina deve ser por conta do horário, ou da altitude. Disse ela, nosso primeiro pronome, que a partir de agora chamaremos de Lívia. Apesar de este ser seu verdadeiro nome, achamos correto dar nome aos bois... ou às vacas. 
- O rapaz ali da frente voltou um tanto quanto zangado da conversa com o motorista, não?
- É...
Lívia, nosso pronomegênito, era sim uma pessoa chata, de poucas palavras. Mas ela possuía suas razoes. Provavelmente, nós iremos saber quais são. Ou mais provavelmente o leitor irá descobrir quais são.
- Bom, vou ali conversar com o moço. Essa foi a última palavra de Marcos, que estava sentado ao lado de Lívia, antes de se dirigir à Paulo, o rapaz que estava logo à frente.
Peço atenção ao leitor para que fique atento aos nomes. Um autor uma vez disse que dentro de cada um existe algo sem nome, e que isto somos. O que estou dizendo é que, na verdade, o que somos está intimamente ligado ao que representamos. E a representação mais digna, não que seja real, é a de nossos rótulos. Assim, por mais que seja chato, e enfadonho para ser mais prolixo, temos que rotular nossos personagens. Nomes... sendo futilidade ou não, são coisas necessárias.
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Marcos se levantou, e com dificuldades, devido aos solavancos e curvas da estrada, chegou próximo a Paulo. Este estava a olhar para a estrada. Não que a visse, o que era possível de se enxergar era o asfalto, a carcaça do ônibus, as linhas curvas que delimitavam o acostamento e a neblina. A neblina espessa, como se fosse uma nuvem intransponível.
- Olá. Tudo bem?
- Bem.
- Vi que você foi conversar com o motorista. Mudaram de motorista no caminho e eu nem vi!!!! Então, como está a situação ali na ‘cabine de comando’?
- O filho da puta não quis conversar. Ficou olhando para mim, e pra frente. Como se desse pra enxergar algo, com essa porra de neblina do caralho na frente.
Ao lado uma mãe tampava os ouvidos de seu filho, que continuava quieto, porém prestando atenção em tudo e em todos.
- Mas ele não falou nada? Sobre mudanças no caminho ou sobre o porquê da mudança de motorista?
- Nada, o viado ficou lá, olhando para frente, de vez em quando olhando para mim e retornando para a direção. Estou puto com isso. Vou ligar para o 0800 quando chegarmos.
- Calma, temos quanto tempo de viagem? Umas 3 horas? Vamos parar daqui a pouco para esticar as pernas, e daí conversamos com o motorista. Pois então, você trabalha com o que?
- Trabalho com manutenção. Estava indo pra cidade desta merda de ônibus para consertar um aparelho, mas... estou vendo que não vai dar tempo. MERDA!
Marcos viu que a conversa com Paulo não levaria a lugar nenhum. E decidiu conversar com Paula, uma coincidência não tão coincidente.
Paulo continuou a reclamar, olhando para a neblina densa que os cercava, e assim Marcos começou a conversar com Paula, notando que na parte de trás do ônibus um murmurinho também começou.
- Ola, pessoal ta nervoso, não?
- É. Mas também pudera, a viagem não está simples. Acordei, eu e meu menino, há pouco. O Paulo está bem nervoso mesmo, queria chegar rápido, mas... fazer o que não é mesmo? Eu não estou me sentindo nervosa, mas uma ansiedade estranha, isso sim. Neblina estranha.
- Então você conhece o colega ali do lado?
- Sim, é o pai do meu filho.
- Hum, casados há muito?
- Casados há muito?
- Casados sim, separados há pouco.
- Mil perdoes, não poderia saber disso.
- Não se preocupe, continuamos bem, é bom pro moleque.
O moleque continuava prestando atenção em tudo e em todos. Mais ou menos no mesmo instante que Marcos e Paula começaram esta simpática conversa, o casal de idosos também iniciava um dialogo entre eles, e tentaram conversar com Lívia e o doente.
- Maria, cochilei, como você esta?
- Bem! Também cochilei. Tempo feio lá fora não é?
- Sim, sim! Neblina forte. Você não acha moça?
- Uhum!
- Você lembra nossa filha!!! Como você se chama?
- Lívia...
- Prazer, sou o José, essa é minha esposa Maria. Não parece com a Carla, Maria?
- É mesmo. Parece muito. Até o jeitão marrento. Disse a senhora com os olhos afogados em lagrimas.
- Mas vocês moram juntos? Quer dizer, o Paulo esta indo trabalhar noutra cidade... como vocês estão no mesmo ônibus, mal lhe pergunte?
- Nos encontramos sem querer na rodoviária, estou indo visitar uma amiga, que pediu pra eu levar o moleque pra ela conhecer. Amiga da época de escola, muito legal! E você, esta viajando a trabalho também?
- Não, na verdade vou ver uma amiga. E desconversou.
- Não ligue para minha esposa, ela fica emotiva. A Carla faleceu há um tempo. Quando comentei que você parece com ela até arrependi. Mas a verdade é que realmente parece.
- Que pena, meus sentimentos por vocês. 
Todos iremos morrer, pensou friamente o doente no final do ônibus. Ainda calado, mas atento.
Lívia se simpatizou pelo casal, talvez por eles também lembrarem seus pais. Este foi um bom momento para nosso primeiro pronome, visto que ela nem se lembrava dos rostos dos pais desde que saiu de casa, um tanto por vontade própria, outro tanto por ter sido expulsa.
- Mas vocês vão pra onde mesmo?
- Estamos indo passear, dizem que nas redondezas da cidade existe um SPA para pessoas da ‘melhor idade’. Brincou José.
- Sim, existe sim. Já ouvi falar e dizem que é muito bom. E não só para a 3ª idade!! Disse Lívia, mostrando o sorriso lindo que poucas vezes estampava sua face.
- Quem bom, estamos precisando de um descanso. E de repente um tempo para namorar. Ai! A expressão, seguida de uma piscadela para Lívia que a fez também ficar com olhos marejados, foi devido ao tapa que José levou da esposa pelo flerte publico que ela tinha recebido.
- Você conhece bem nosso destino? Quero dizer, a cidade, as pessoas, os lugares?
- Não. Respondeu Paula, achando estranha a vergonha que Marcos sentiu de sua pergunta anterior. Na verdade é a primeira vez que vou a esta cidade. Mas dizem que é bem legal. Espero que o moleque goste.
- Sim sim, a cidade é bela. Acho que vocês dois vão gostar. Especialmente você campeão!! E coçou a cabeça do menino, que a principio não gostou. Muito menos Paulo.
- Também não conheço, nem sabia que a Paula e meu filho iriam. Agora vou arrumar um tempo para ir a algum parque com o garoto e brincar com ele, já que a mãe não deixa em nossa cidade.
- Não é assim Paulo, você sabe.
Enquanto isso o garoto observava. Olhos de lince, ouvidos de morcego, cérebro de gênio. Ele começava a captar a mensagem do ônibus.
Os assuntos prosseguiram. As pessoas mudando, sem deixar de serem as mesmas. Se abrindo umas para as outras. Em breve saberemos um pouco, um resumo, do que cada um destes oito passageiros passou em sua breve estada nesta viagem.
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O motorista seguia, rumo ao destino final de todos. Sim, isto é tudo o que temos para falar dele.
Lívia era uma mulher linda, corpo escultural, inteligente e muito sensual. Talvez por isso fosse tão ranzinza, talvez por isso fosse prostituta. Iniciou a carreira com 17 anos, a primeira vez pela aventura, mas gostou do dinheiro, do cheiro do papel colorido que proporcionava a ela roupas e jóias. Muitos de seus clientes se apaixonaram por ela, inclusive um adolescente, que ela “descabaçou” quando ela 19 anos, já experiente. O garoto apaixonou, descobriu onde ela, com os pais, e fez o que qualquer adolescente faria: escândalo. Os pais descobriram, a expulsaram e nunca mais ela os viu. Mesmo se quisesse, ambos adoeceram e faleceram algum tempo depois. Uns dizem que foi por desgosto, outros por idade mesmo. Desde então Lívia tem feito os homens se apaixonarem por ela, devido ao seu esplendido desempenho na cama, à sua ginga, e principalmente ao fato de ela realmente saber fazer um homem se sentir homem. Podemos resumir sua vida assim: ela gostava do que fazia, e sabia fazer, tinha orgulho, mas não tanto, e queria sair dessa vida.
Paulo conheceu Paula na faculdade, ambos calouros, ambos crianças, ambos inexperientes, ambos apaixonados. O namoro durou muito, durante o período da faculdade, quatro anos. O moleque nasceu durante, com dois anos de relacionamento. Claro que isto atrapalhou os cursos, e claro também que atrapalhou o curso dela. Ele se formou. Eles se casaram. Eles não foram felizes. Eles se separaram, e desde então conseguem viver. Coisa que não faziam,quando estavam juntos, Paulo era violento e batia no moleque, e em Paula. Ela aceitava apanhar, desde que o garoto não sofresse. Mas ele via, ouvia, e sofria. Talvez mais que todos. Não, não era o garoto o culpado de tanta raiva, mas sim uma podridão interior que Paulo guardava, ninguém, nem ele mesmo, sabe de onde veio tanto rancor. Apensar disto, o moleque achava que a culpa era dele, e todos queriam sair dessa vida.
José e Maria, um casal clichê. Mas este casal era esplendoroso. Um amor incondicional, sem traições, com cumplicidade, com sentimento, com compreensão, com amor. Tiveram uma filha, Carla, que faleceu, vitima de solidão, depressão, desespero, infantilidade, como queiram. Desde então, José e Maria tem vivido como a filha, solitários. Viveram a melhor vida juntos, fingiam que continuavam vivendo com o mínimo de felicidade, mas queriam sair dessa vida.
Marcos era um homem casado, bem empregado, salários altos, com bens, propriedades. Um homem inteligente, brincalhão. Amado por todos. E principalmente por todas. Apesar de uma imensa vergonha que sentia, não conseguia ficar um tempo grande (por grande, leia-se alguns meses, dois por exemplo) sem trair sua mulher. Não caro leitor, sua mulher não era feia, era linda. Um corpo muito bonito. Inteligente, simpática, conversava sobre tudo, compartilhava as coisas sobre Marcos. Mas ele não se contentava. Seu corpo e sua mente o obrigavam a gozar dentro de outra mulher. Este era seu vício e seu prazer, e ele queria sair dessa vida.
O doente, este não nomearemos, pode ter qualquer nome. O passageiro doente era uma pessoa inteligente, era uma pessoa simpática, era uma pessoa amável, era uma pessoa querida, era uma pessoa cativante. ERA. Depois que descobriu sua doença ficou doente. Doente de cabeça. Preconceito de si próprio se iguala a qualquer tipo de preconceito. Ele tinha nojo de se tocar, tendo inclusive cortado as mãos devido aos socos que dava no espelho ao ver seu rosto pálido e magoado. Há quem diga que a pior doença dele, talvez a única, era a doença de sua mente. E ele, assim como os outros, queria sair dessa vida.
Desta forma contamos o resumo da viagem de nossos passageiros, uma viagem estranha, conturbada, e com um final feliz, por incrível que pareça.
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Prosseguiram a conversa por umas duas horas (note que este tempo vem da nossa imaginação, que os vemos por fora), neste momento as únicas pessoas que não conversavam eram o doente e o moleque.
Paulo continuava tentando ser simpático com o filho, ao mesmo tempo em que tentava ser antipático com a esposa. Nesse fogo cruzado estava Marcos, que se interessou por Paula, talvez devido ao fetiche dela ser mãe, e do ex-esposo estar tão perto. Às vezes Marcos jogava e a estratégia era ser o oposto do que Paulo era, o que agradava Paula, e ela demonstrava isso, principalmente para irritar, ou tentar reconquistar, Paulo.
Na parte de trás do ônibus, José e Maria estavam muito felizes por ter um pedaço de sua filha de volta, e Lívia feliz por ter um pedaço de seus pais de volta. Os três conversavam e riam como se conhecessem há muito tempo, e isto os alegrava. 
Num dado momento todos pararam de conversar e se entreolharam, todos os oito passageiros. Por um instante entenderam. E continuaram conversando. Mesmo os que não estavam conversando entenderam. 
Na verdade, o moleque, a criança, foi a primeira a entender. Mas não quis parar, não queria deixar de ver o pai e a mãe juntos, flertando, como que se gostasse de ver que eles ainda sentiam algo um pelo outro. Mas viu que não. Viu que tudo, em todos, em todos os oito, tudo não passava de um grande teatro. Um teatro verdadeiro, ele compreendeu. Era verdade que Lívia sentia algo pelos seus pais, era verdade que José e Maria sentiam muito a falta de Carla, era verdade que o doente era a pessoa doente que ele era, era verdade que Marcos flertava, que seu pai gostava dele, que a mãe além de amá-lo amava também o pai. Era verdade. Assim como era verdade que ele deveria ser a pessoa que mostraria a todos o que estava acontecendo.
Ele se levantou. Olhou para todos. Todos pararam de conversar, sabiam o que estava acontecendo, mas tinham medo. Olhou dentro dos olhos de cada um. Com a profundidade de quem diz: “Se cuidem. Entendam. Vocês tinham que ter sido mais, e melhores.” E disse:
- Eu vou.
O ônibus parou. A neblina ainda estava lá. Mas eles estavam enxergando. Ele saiu. Todos se olharam. Não estavam espantados. Não estavam mais com medo. O doente saiu logo após o garoto. Haviam finalmente chegado ao destino final."