domingo, 12 de fevereiro de 2017

Lei 818 (continuação)

Capítulo 2 – A morte de Gustavo

    Havia 7 anos e alguns meses do início da Lei 818. As coisas já estavam se acalmando, na medida do possível. Quando a Lei foi instaurada, várias pessoas haviam morrido, mas essa era a ideia, certo? Pessoas continuam morrendo, e vão continuar, independente da Lei. Seu propósito era, digamos, apenas de acelerar as coisas.
    César acordou naquele dia com dor de cabeça, ao lado de Carla. Eles não conseguiram “fazer amor” durante essa noite, o que fez com que ele não dormisse direito. Essa expressão “fazer amor”, tão empregada pelos humanos, é inusitada. Todos os animais “fazem amor”, inclusive casais de louva-a-deus, o que deixa a expressão um tanto quanto estranha, vista a definição de amor. Mas vamos voltar a César: acordou com dor de cabeça. Tentou ver se um banho ajudava, mas não ajudou. Carla gritou por ele, o que o deixou mais irritado. César pensou em fazer um café, pois é evidente que um café ajuda as pessoas (no meu entendimento, fazer café poderia ser chamado de “fazer amor”). Colocou a água para ferver, inseriu o pó no filtro, esperou a água ficar quente, e tentou coar o café. Talvez pela dor de cabeça, talvez por sono, ou talvez por um simples desequilíbrio, César deixou grande parte da água quente misturada com pó de café cair em sua barriga. “Ahhhhhhh SACO!!!” “O que foi, meu bem?” “Nada não! Merda!” Notadamente Carla expressou tristeza, após este último grito de César.
    Depois de se banhar novamente, reclamando da dor devido à água quente, de colocar seu terno, e de tomar café com Carla em silêncio, César saiu para  trabalho. No trânsito, sempre com um fluxo de carros extremamente alto e um fluxo de pessoas bastante nervosas, César continuou sua saga de fúria. Xingou e esbravejou muito com um Fiat Uno, que continha um grande adesivo de uma empresa de telecomunicações na lateral, devido a uma ultrapassagem indevida. Sempre me indaguei o porquê de humanos xingarem carros, de fato quem realiza as proezas são o objeto entre o volante e a poltrona.
    Chegando ao trabalho, César entrou para seu escritório. Vários papéis, várias laudas, vários casos e processos. A formação de César é em direito, se tornou advogado e trabalha numa firma de porte médio. O trabalho de advocacia é estressante, assim como a grande maioria dos trabalhos realizados pelas pessoas. Sempre alguém irá reclamar ou disputar com seu colega qual trabalho é o pior. Humanos e suas humanices. Como a cabeça de César estava bastante alterada nessa manhã, ele fingiu estar trabalhando, ficou olhando os papéis e depois ficou escrevendo comentários na grande rede.
    Assim ele passou a manhã e parte da tarde, até que seu chefe apareceu em sua sala. Estava falando alto, reclamando do atraso em dois processos sobre divórcio e se César havia providenciado documentos a respeito do espólio de uma companhia. Obviamente, César não estava com a menor paciência para seu chefe, e respondeu com emoção: “Claro Doutor, me desculpe. Amanhã arrumarei tudo isto. Hoje estou meio indisposto. Me desculpe.” “Indispostos ficaremos nós com sua falta de profissionalismo. Por favor, providencie tudo para amanhã.” “Tudo bem, me perdoe.” O ser humano é capaz de alguns momentos de auto-humilhação surpreendentes. Se estivéssemos na cabeça de César, ouviríamos o seguinte diálogo: “Olha aqui, seu filho da puta. Acordei num dia de merda... se der arrumo essa desgraça pra você amanhã. Passar bem.”
    No fim do expediente César encontrou com seu colega e amigo Flaviano, no elevador. “Cara, que diazinho viu?” “O que foi, Cezinha?” “Ah... nada... só quero chegar rápido em casa, ver a Carla, assistir uma série e ir dormir. E você?” “Cansado. Querendo chegar em casa rápido também. Dia foi tranquilo, mas cansativo. Dê um alô pra Carla por mim, ok?” “Beleza. Abraço.” “Falou. Qualquer coisa me liga.” E assim César prosseguiu para seu carro, e iniciou a trajetória de volta para sua casa.
    O trânsito estava normalmente assustador. Carros, motos e caminhões voando uns entre os outros pelas vias da avenida. Após ficar 20 minutos parado, provavelmente devido a algum acidente à frente, a via onde César estava prosseguiu com certa rapidez (realizando cálculos precisos com minha onipresença, eu diria a uns 30 km/h). De repente, um Fiat Uno consegue espaço na frente de César, e encosta de leve em seu carro. Após o susto, César olha para o carro, e nele estava o adesivo TeleInternetComunicações LTDA.
    Era isso, a gota d'água. César pegou seu revólver no porta-luvas, andou em direção ao motorista, olhou pra ele e atirou 3 vezes. Uma na cabeça, duas no peito. Largou a arma, pegou o celular. “Flaviano, vem aqui na rodovia 601, perto do kilômetro 278. Acabei de fazer meu primeiro 818.”

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Lei 818 (Título Provisório)

“Mais vale um pássaro na mão que dois voando...”
(ditado popular)
 
(i) Do narrador

    Uma busca rápida pela grande rede pode te contar, de maneira até eficaz, mas não necessariamente verdadeira, o que é um narrador numa história. Normalmente narradores são aquela voz (masculina ou feminina) que você ouve enquanto lê e que te conta o que está acontecendo. Podemos pensar num deus, ou numa deusa, que observa os acontecimentos, sem participar ativamente do conteúdo do texto. Em geral, eles são isentos de personalidade, apenas apresentam a quem lê a obervação do local ou até mesmo características psicológicas de personagens.
    Algumas narrações são realizadas em primeira pessoa, indicando que os próprios personagens narram a história, passando a quem lê a sua versão dos fatos. Isto não acontecerá aqui, pois não há uma ou outra versão dos fatos, apenas a versão correta, que corresponde a que o narrador conta.
    Neste texto informo (eu, o narrador) que sou um ser onipresente e atemporal, mas não onipotente, visto que posso dar informações de qualquer local e de qualquer tempo antes, durante e após esta grande história que vocês estão prestes a ler. Por exemplo, adianto que um dos personagens principais, César Campo, encontra-se preso por ter assassinado duas pessoas. Esta é outra característica do narrador desta magnífica história: vocês vão perceber um certo tom de ironia e sadismo em diversos momentos, e a prepotência divina que os narradores devem ter, quase por definição.
    Aproveitando a ironia e a prepotência mencionadas, peço desculpas pelo uso do termo narrador, indicando um certo teor masculino, mas vou escrever desta forma pois assim desejo. Também de acordo com o meu gosto, e imaginando que a pessoa que lê tem o mínimo de capacidade de interpretação, alternarei a narração em primeira e terceira pessoa. Para aqueles leitores que estão abaixo desta linha mínima, aviso: a narração, estando escrita na primeira ou terceira pessoa, é feita por mim, o narrador, que sou o observador divino desta história.

(ii) Do local e dos personagens

    Esta história se passa num país fictício, com fronteiras fictícias, e com pessoas fictícias vivendo num certo momento de um tempo fictício. Mas todas as características descritas podem ser facilmente refletidas no que o leitor ou a leitora vivem diariamente. Portanto, vamos à descrição de alguns detalhes.
    A cidade principal onde ocorrerão as aventuras deste conto, ou desta anedota, se chama São João. Uma cidade grande, de 6 milhões e meio de habitantes. São João é uma cidade “normal”, entre aspas sim pois normalidade ou não depende da perspectiva. Portanto São João possui avenidas, ruas, muitos carros, políticos, polícia, bombeiros, ladrões, escolas, universidades, hospitais e 5 grandes presídios. São João é uma cidade cinza, com poucos lugares de mata.
    O país onde São João está encravada se chama Cataruba. É um país tropical, possui florestas, um pequeno litoral, planícies e algumas montanhas. As cidades em Cataruba são de porte médio, com 4 cidades grandes como São João. Todas as cidades deste país sofrem das mesmas leis e da mesma doença populacional.
    A civilização de Cataruba é constituída por um povo “normal”. Seres humanos de pele branca, negra, parda, mulata. Homens, mulheres, crianças e idosos. A população jovem de Cataruba sofreu de um declínio muito grande em tempos não muito distantes, principalmente devido à Lei 818. Em especial, foi observado um declínio muito grande entre homens com idade entre 20 e 45 anos. Porém, a situação tem se tornado mais estável nos últimos meses.
    Sobre os personagens principais da história, já foi citado César Campos, homem branco, classe média, fé cristã, 28 anos, que encontra-se preso sob pena de morte, pelo simples fato de ter matado 2 pessoas em sua vida. Curiosidade: em toda a história humana houve deuses de diversas religiões que não foram condenados à morte, mesmo tendo matado muito mais pessoas.
    Demais personagens que podemos citar: Maria Campos, mãe de César; Carla Sampaio, namorada de César; Gustavo Mello, a primeira pessoa que César assassinou; o Maldito, a segunda pessoa que César assassinou; Gil Silva, amigo de César; Marina Duarte, amiga de César; Flaviano Costa, advogado de César; e alguns políticos. Outros personagens surgirão no decorrer da história, mas não é necessário mencionar agora. Apenas espera-se que o leitor entenda que o cerne de tudo ocorre com César.
    As demais pessoas de São João, obviamente também de Cataruba, acabam por viver situações semelhantes às vividas por quem for citado nominalmente neste magnífico texto. Isto se deve à Lei 818.

Capítulo 1 – O 218º dia

    A cela era pequena, sem janelas, pouca iluminação, um colchão fino e empoeirado em cima de uma cama de alvenaria, uma bandeja para realizar as tais necessidades fisiológicas no canto, uma porta grossa, com uma pequena janela em baixo por onde entregavam-lhe o alimento diário. A bandeja foi uma invenção bastante prática: o prisioneiro realizava suas necessidades, e a ela podia ser rotacionada de modo a realizar a limpeza pelo lado de fora da cela. Se o prisioneiro fizesse algo fora da bandeja, o problema era dele para realizar a limpeza.
    A comida era simples: pela manhã café, pão seco; no almoço arroz, feijão, alguma proteína diária, pouca salada, água; na janta mais café e pão seco. Tudo servido em pratos e talheres de plástico fino. Cada prisioneiro era levado para tomar um banho por semana, normalmente acompanhado de um policial que jogava um jato de água nele.
    Basicamente a vida de qualquer prisioneiro era essa, durante cada um dos 365 dias obrigatórios de prisão, até que fosse morto por injeção letal. Até então, ou pelo menos até onde eu sei, e eu sei bastante sobre Cataruba, 100% dos prisioneiros sofreram a pena máxima capital.
    César Campos estava em seu 218º dia encarcerado, e portanto sua mente já não funcionava direito. Várias das coisas que ele disse ou pensou podem conter traços do que realmente ocorreu, mas não necessariamente retratam com certeza os fatos que os levaram até aquele lugar. Lembrava pouco do rosto de várias pessoas, mas em especial ele se lembrava perfeitamente do rosto de sua mãe Maria, de sua namorada Carla, de Gustavo e do Maldito. César conversava quase diariamente com Carla, e pelo menos uma vez por semana ele tentava dialogar com o Maldito. Obviamente, como ambos estavam mortos, a conversa se passava em sua cabeça perturbada.
    Neste dia, após tomar seu café e realizar sua diarreia mensal, César iniciou seu monólogo, entre uma frase e outra ele esperava a resposta. “Maldito, como você está?” “Aham... Deve tá bem não é?” “Aqui está tudo igual. Não sei quanto tempo direito falta.” “Pois é, me conta como estão as coisas aí, Maldito.” Após esta última frase, César ficou prestando atenção, como se o Maldito estivesse respondendo. Esta cena, lamentável e um tanto engraçada do meu ponto de vista, durou por uns 3 minutos. Após isto, César se deitou e dormiu um pouco.
    Pouco antes do almoço, César acordou. Sentou-se na cama, encarou a bandeja, e de repente iniciou sua outra conversa. “Carla, você tá aí?” “Carla... ei Carla...” Depois de alguns segundos continuou. “Oi! Tudo bem com você, meu amor?” “Você já olhou aí se vai dar pra gente se ver quando eu sair daqui?” “Hum, entendo.” “OK, mas você vai conversar direitinho pra gente se ver daqui uns dias, certo?” “Pois então, aqui está igual.” “Não... não sei se é noite. A luz continua igual. Deve ser dia, tá quase na hora do almoço.” “Hoje deve ser arroz, feijão e frango. Pelo menos eu espero ser frango, estou com vontade de comer franguinho.” “Aí teve bacalhau? Faz anos que não como bacalhau. Come aí por mim.” “Ah, você vai passear hoje? Pra praia? Vê se tira uma foto!” “Ah sim, eles não permitem fotos. Mas OK, amanhã você me conta. Beijo.”
    Cinco minutos após ele terminar a conversa, foi usar a bandeja, e enquanto a usava o almoço foi servido. Era arroz, feijão e um hambúrguer semi-congelado. De carne bovina.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Uma experiência de ensino e aprendizagem com a Agronomia

Oi, joia?

Este semestre peguei para lecionar uma disciplina que não gosto (e este meu desgosto é público): FIF193 - Introdução aos Fluidos e Termodinâmica, para a turma de Agronomia. O meu desgostar não é devido ao conteúdo, nem à turma (apesar do bloqueio claro que eles têm com Física e Matemática). É devido ao tempo extremamente limitado (2 horas semanais) para dar um conteúdo que é de aplicação imediata na área de Agronomia.

Ano passado, quando me passaram esta disciplina, já comecei a pensar em como eu faria pra molecada tentar, ao menos tentar, pensar um pouco da ciência Física na área deles. Já lecionei para Agronomia algumas vezes no passado, tentando alguns "métodos" para melhorar o aprendizado, e a atenção da galera em sala:
  • Com relação ao "aprendizado medido por avaliação"¹: 
    • somente provas e aulas mais técnicas (o pior, om 90% de reprovação); 
    • aulas técnicas + lista de exercícios (também ineficaz); 
    • provas técnicas/conceituais + trabalho sobre Agronomia e Física.
      • Este último eu tinha grande esperança, mas... a galera deixava pra fazer o trabalho na última semana, apesar de todo e qualquer esforço moral que tentava dar.
  • Com relação à atenção em sala:
    • O que sempre tento, TENTO, em todas as turmas, é respeitar sempre o/a estudante em sala, como pessoa e como "adulto", assumindo uma maturidade, minha e deles, que às vezes falta, em ambas as partes. Sair do pedestal docente que muitas vezes ou a gente gosta de ficar ou a gente se coloca "por osmose" mesmo. Isso me deixa em posição bastante confortável pra dizer que tenho poucos (quase nenhum) problema com respeito em sala de aula².
    • Tento, TENTO, falar de política e atualidades (enquanto posso, enquanto o "Escola sem Partido" ainda não chegou) em sala, para trazer o pessoal pro meu "papo" antes de começar as aulas (este semestre tive, infelizmente, MUITO assunto sobre política, machismo, estupro, homossexualidade, etc. pra tratar em sala :( ).
    • Nas turmas de Agronomia há um certo despreparo, técnico e psicológico, com relação à Física e Matemática, e isto desmotiva docente e discente. O que fazer? Não tenho resposta. Sou Físico teórico, às vezes tenho uma dificuldade imensa (assim como a galera tem com Física e Matemática) em dizer alguma aplicação prática da ciência básica que estamos estudando. E o pessoal fica nessa de "ah... pra que serve isso?" Bom, já tentei nas turmas de Agronomia:
      • Ser rigoroso;
      • Ser bonzinho;
      • Ser o misto de bonzinho e mau... o maldoso de Schrödinger;
      • Tentar dar exemplos da área durante a aula;
      • Diminuir a tecnicalidade e aumentar o conceitual;
      • Etc.
Até este semestre (2016/1), NENHUM dos métodos avaliativos³ citados acima tinha dado certo com a turma da Agronomia (apesar de ter dado certo em turmas de Engenharias ou ciências básicas).

Este semestre tentei algo diferente: 
  • Aulas "normais" (pelo menos não vi ninguém soltando raio pelo olho, ou levitando, em sala), quadro e giz, com complemento de animações enviadas por sistema eletrônico (PVANet) e discussões extra-classe.
    • As aulas foram mais conceituais, mas sem fugir do (pouco) rigor matemático que posso exigir da turma ("Vai ter integral, SIM! E se reclamar, vai ter integral dupla!").
    • Tentava, sempre antes de introduzir um conceito, pedir que a própria turma dissesse o que pensava sobre o conceito (exemplo: o que é temperatura, ou o que é um fluido), e pedia para que a galera discutisse as propostas conceituais dos colegas. Tentando ver se eles mesmos chegavam à conclusão do que estávamos trabalhando.
    • Pedia SEMPRE que eles dissessem uma aplicação do que estávamos estudando dentro da Agronomia.
    • Aulas extras de exercícios, antes das provas.
  • Com relação à Avaliação:
    • 2 provas individuais, sem consulta, com 4 questões discursivas (técnicas e conceituais). Um exemplo de prova segue abaixo. Valor de cada prova: 30 pontos.
    • Um trabalho constituído de 3 partes:
      • Plano de trabalho (7 pontos), a ser entregue com 2 semanas de aula. No plano, o/a estudante teve que indicar o conteúdo de Física e Agronomia que iria trabalhar no projeto final, como pretenderia realizar o projeto final e quais os principais objetivos.
      • Pré-projeto (13 pontos), a ser entregue com 1 mês e meio de aula. A pessoa deveria indicar um pouco mais sobre a Física e Agronomia a serem abordados, assim como o método usado para a pesquisa (internet, Google, professores, colegas, etc) e (principalmente) a ligação entre Física e Agronomia.
      • Projeto (20 pontos), a ser entregue na última semana de aula, portanto com 4 meses de aula. A pessoa deveria entregar os detalhes técnicos sobre a Física e a Agronomia que foram abordados no projeto, a metodologia completa, bibliografia, o impacto futuro do que estudou, e principalmente a ligação entre Física e Agronomia abordados.
    • O único "contra" que encontrei com relação ao Projeto como avaliação: numa turma de 50 estudantes, pedi no Plano um mínimo de 2 páginas, no Pré-projeto um mínimo de 5 páginas e no Projeto um mínimo de 10 páginas, tornando assim um grande "trabalho" para eu corrigir tudo.
    • Os "prós" do Projeto: 
      • a turma estava MUITO atenta e empolgada com os conteúdos de Física em sala, por vezes ressaltando que aquele conteúdo específico entrou no trabalho e que estava auxiliando;
      • houve um respeito e confiança mútuo entre mim e a turma, a partir do momento que eu disse que teria que aprender com eles (no conteúdo de Agronomia) e que esperava que eles aprendesse junto comigo;
      • a taxa de reprovação foi muito baixa;
      • a taxa de evasão de estudantes na turma foi talvez a menor que já tive em Agronomia;
      • em vários momentos os estudantes me paravam pra conversar algo aleatório sobre Física (sobre teoria do Big Bang, por exemplo), e também sobre o Projeto;
      • houve uma real discussão e pesquisa entre os estudantes, que também procuraram outros docentes para conversar.
Da experiência deste semestre, consegui perceber o seguinte (algumas coisas pode parecer óbvio, mas não são, ao menos pra mim):
  • Sairmos do pedestal arrogante, da torre de marfim acadêmica que às vezes nos metemos e temos dificuldade de sair, nos ajuda MUITO em conversar e em passar de fato o conhecimento que temos;
  • Nos reciclar e tentar novas metodologias é essencial;
  • Quero tentar novamente, em turmas de Engenharia e Agronomia, este método... mas NUNCA que tento esta quantidade de páginas;
  • Ouvir os estudantes, e tentar nos incluir no que eles estão vendo em outras áreas é essencial também;
  • Temos que aproveitar ENQUANTO PODEMOS a chance de conversar sobre coisas extra-disciplina em sala, pois em breve as "pessoas de bem" vão nos deixar mudos, o que é problemático demais.
  • Aprendi um monte com a turma.
Enfim, é isso. Só um depoimento sobre um método que creio eu funcionou... pelo menos pra mim, que agora sei o que é um Carneiro Hidráulico, o que é Xilema e Floema, que a temperatura altera a dinâmica de formigas (!!!), que temperatura altera como o solo reage a determinado cultivo, etc.

Só tenho a agradecer. Obrigado.

Abraço,

Leo.



¹Sei que o método avaliativo não implica diretamente em aprendizado, mas infelizmente TEMOS que adotar algum método avaliativo.
²Note que não estou dizendo que não sou arrogante, sou e muito.
³Note que não conheço muitos métodos ensino/aprendizagem. São intuições minhas e aplicações empíricas em sala mesmo.



domingo, 24 de janeiro de 2016

ERROR 404

Olá,
Uma coisa que pensei com Jéssica hoje. Será que dá mais um texto inteiro? :)

ERROR 404 (por Leo Souza)

Prólogo

“Merda… insônia de novo? Que bosta. Merda.” Ele olhou para o celular e viu as horas, com os olhos ainda inchados. “00:00.” “Merda. Só falta perder o sono de novo. Merda.” Levantou e foi ao banheiro. Não aparentava estar cansado, ou com insônia. Seus olhos não estavam fundos, nem vermelhos, e sua cor estava boa. “Merda.” Em sua cabeça só a vontade de voltar a dormir existia. Jogou um pouco de água na boca e gargarejou. Após apagar a luz do banheiro, foi à cozinha tomar uma água e só então notou a luz do dia.

“Mas que desgraça é essa?” Olhou novamente no celular. “00:00.” “Que merda de celular! Que horas são nessa merda? Porra, vou perder horário de novo?” Correu para ligar o laptop. Enquanto aguardava, tentou checar o sinal do telefone, nenhuma barra. “Operadora de merda, nunca dá sinal, merda! Caralho! Merda de laptop que não liga!”

Correu na sala, pegou o controle e ligou a TV. Globo, fora do ar. Band, fora do ar. SBT, fora do ar. “Merda! MERDA! Liga laptop de merda!” Foi à cozinha e tomou dois copos d'água. Notou pela janela um estranho movimento na rua, de pessoas que ele nunca tinha visto, com uma ansiedade estampada no rosto que ele nunca tinha notado.

Assim que o laptop ligou, digitou sua senha e clicou no Chrome. “Erro 404. File not found. Página não disponível.” “FILHO DA PUTA! Merda!” Clicou no Firefox. “Erro 404. File not found.” “Caralho!!!” Internet Explorer. “Erro 404.” “MERDA!!!” Na televisão, o sinal de todos os canais ainda estavam naquele ruído branco estranho e meio hipnótico.

Começou a trocar de roupa, para tentar pensar numa desculpa para seu chefe, por chegar atrasado novamente. “Merda, que horas são nessa merda!” Não conseguia ligar para ninguém, nem comunicar com ninguém. Não tinha telefone “de linha”. O telefone público que ainda funcionava ficava longe de sua casa. “MERDA!” Foi no seu modem e retirou o cabo da fonte, com raiva. “Operadora de merda! Internet de merda desse país que não funciona!” Esperou os 5 minutos recomendados para retornar o cabo para o modem. Esperou dar o sinal do wifi e tentou clicar novamente. Chrome, “Erro 404”. Firefox, “Erro 404”. “MERDA! MERDA!!!!!” No celular ainda marcava “00:00”, ele não tinha relógio de pulso para conferir. “Merda!”


Desceu e abriu a porta da garagem, entrou no carro e deu a partida. “Ahhh caralho, a rádio vai funcionar!!!” Ligou na primeira rádio de notícias que teve acesso. “… aparentemente está um caos na cidade, o trânsito, os postos de gasolina, as TVs, os celulares, parece que tudo…” “Mas há alguma notícia do restante do país?” “Não temos como saber, como já foi dito todo o sistema de comunicação por internet está fora do ar.” Ele desligou o carro. “Merda.” A internet tinha caído naquele dia.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Desvendei a função da classe média!

É isso. Descobri o porquê - junto e com acento - da classe média. Não pensem que é um motivo ruim, ou bobo, ou infantil, é sim muito importante. Então, vamos por partes... Estou dividindo os seres humanos em três classes distintas: o pobre, o rico e a classe média. Que as feministas, principalmente as da classe média, não me julguem por ter duas classes com artigo "o" e somente uma com artigo "a". É puramente pra manter a coerência gramatical.

O pobre trabalha, dia e noite, noite e dia, mantendo a sociedade funcionando. O trabalho do pobre é essencial. O pobre não possui muitos bens, não possui muito dinheiro, mas é feliz e continua nas suas funções. 

O rico coordena, pois os seres humanos precisam de coordenação, de alguém que os diga o que fazer e pra onde ir. O rico possui bens e muito (muito) dinheiro. O rico é feliz, e continua nas suas funções.

A classe média reclama. Ponto. Simples assim. A função da classe média é reclamar. O trabalho da classe média não é totalmente essencial, a classe média não coordena. Mas a função de reclamar é fundamental. As pessoas da classe média precisam reclamar, de tudo e de todos, mesmo não tendo motivo de reclamação. Cito um exemplo: uma pessoa da CM (Classe Média) acorda, prepara seu café e toma. O gosto está bom, muito bom, mas a pessoa da CM reclama "O café está bom, mas o café brasileiro bom mesmo é o de exportação, não esse que a gente toma!" Outro exemplo: "Um absurdo eu ter que pagar pra minha empregada doméstica os direitos trabalhistas, mesmo porque tenho que cuidar dos meus direitos. Inclusive, como vou guardar meus dois (três?) carros nas vagas tão apertadas do prédio?" Posso pensar em exemplos aqui e escrever até 2022, mas meus dedos já estão reclamando do tamanho do texto.

Uma pessoa típica da CM reclama do preço da gasolina, mas toma sua cervejinha gourmet todo dia, em bares gourmet. E depois reclama da temperatura da cerveja. Uma pessoa da CM reclama no Facebook, reclama muito. Por falar em Facebook, essa talvez foi a maior ferramenta que já existiu pra CM. Antes tinham o Orkut, "mas no Orkut tinha muita inclusão digital". Tem o Twitter, "mas como vou colocar tudo o que tenho pra reclamar em 140 caracteres?" No Facebook e no tal do Whatsapp não... ali a pessoa da CM tem sua rede social perfeita, pessoas que pensam (???) tão bem quanto ela. Pessoas da CM. Note que a rede social da CM se resume à pessoas da própria CM, portanto pensam (???) de maneira quase sempre igual. No Face ou no Whats a pessoa da CM consegue: (1) expor suas alegrias durante toda a semana, normalmente em selfies, com paus de selfie, ou com algo gourmet; (2) reclamar. Reclama do governo, reclama da cerveja gourmet, reclama do trânsito, reclama da chuva, reclama da seca, reclama do calor, reclama do frio, reclama dos impostos, reclama dos políticos. A pessoa da CM vomita reclamações, por instinto... faz parte de ser Classe Média.

Mas por quê - separado e com acento (certo?) - essa função é importante? Primeiro, reclamar do governo e de políticos é essencial pra sociedade democrática. Temos que criticar, temos que questionar, mesmo não sabendo o porquê - junto e com acento - muitas vezes. Reclamar e pedir uma ditadura anti-democrática, num ambiente democrático, para voltar a reclamar pois a ditadura não os deixa reclamar em paz! A obra prima das pessoas da CM é reclamar sem saber o motivo da reclamação. Reclamar por reclamar, fazer com que a voz do Facebook saia dos espertofones/iphones/notebooks para as ruas! E isso, em alguns momentos é importante. Segundo, porque - junto e sem acento (certo?) - reclamar é divertido, reclamando a pessoa da CM tenta humilhar o seu semelhante, consegue impor sua opinião!

"E daí?", você deve estar perguntando. Esse post é apenas mais uma reclamação da CM. Não tem motivo, nem finalidade. Pois é, assim somos nós: reclamamos e engordamos mais a CM, pessoas pobres se tornam CM e começam a reclamar, pessoas ricas se tornam CM e começam a reclamar. E com isso a sociedade humana, em especial a brazuca, continua... pelo menos continua depois do Carnaval, porque - junto e sem acento - até lá vamos nos divertir e reclamar muito!

Abraços!

Leo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Já tem nome: Amanhã é um novo dia...


4.


“Uma semana agradável, depois de vários dias extremamente tensos.” Digo para minha mãe quando ligo para ela no sábado de manhã. “Mas o que foi, Marco?” “Ah mãe, muita coisa na cabeça, o término com a Clara, trabalho enchendo a paciência. Enfim, coisas de adulto. Hahaha” “A gente aqui ficou muito chateado com isso tudo entre você e Clara. Você sabe o tanto que a gente gosta dela.” “Complicado, mãe... complexo. Mas, fim de semana passado quando tava na praia deu pra acalmar a cabeça. Aqui, vou desligar e arrumar pra almoçar. Hoje devo dar uma saída com o pessoal.” “Tá bom, juízo aí.” “Ok. Te amo. Beijos.” Ela nunca iria entender, nem ela nem ninguém. Às vezes acho que nem eu mesmo entendo.
“Ei, a fila andou!!!” Uma senhora me diz, enquanto estou com a colher de arroz para servir. “Opa, desculpa!” Nos últimos dias ando perdendo muito a cabeça, sonhando acordado, pensando o que fazer da vida. Desde o último mês, quando a ficha realmente caiu sobre que estava ocorrendo comigo, tenho ficado bastante assim. Sirvo um prato típico, peço um suco, e ao término vou para casa descansar. A semana foi muito boa, mas minha cabeça está em frangalhos. Estar preparado para permanecer vivo, dentro de minha cabeça, é um trabalho que desgasta. Deito no sofá e ligo The Doors.
Acordo com o celular tocando, “Fala Marco, beleza?” “Tudo tranquilo, Carlo. Dei uma cochilada. Hehehe” “Deu pra perceber pela voz. E aí, melhorou?” “Tô bem. Parou de dar pane em meu corpo. E minha cabeça parou de doer. Cara, tava difícil ficar daquele jeito. Parece que tirei algo das costas.” “Marcão, você não sabe o tanto que fico bem em ouvir isso.” Sinto verdade na voz de Carlo, ele sempre foi um amigo bacana. “Eu também! E aí, tá combinado as 8 no Bar?” “Pois é, tá combinado. Tá indo eu, Janaína, Paulo, Luis, e duas amigas – gatinhas por sinal – da Jana.” “Hahaha. Tô de férias disso, meu caro! Mas tá certo então, combinado.” Desligo o telefone, penso que vai ser uma noite agradável. Pessoas bacanas, papos ótimos, mulheres bonitas. Mesmo que eu não queira mais nenhuma, é sempre bom ver gente bonita.
Consigo apenas pensar em não ligar, não mandar mensagem, não procurar, não ver a Clara. Ela não tem mais o costume de frequentar o Bar, mas como minha cabeça está boa esses dias, creio que é melhor fazer este tipo de “terapia pré-buteco”. Antes de sair de casa, vou desligar o som. Jim Morrison canta assim que chego para apertar o botão, “This is the end/My only friend/The end.
No Bar, chego antes de Janaína com as amigas. Paulo, Luis, Carlo e eu conversamos sobre nossos times, eles tomando uma cerveja e eu um suco. Obviamente, todos ficam caçoando de mim devido à minha abstinência alcóolica, mas faz-se necessário. Acabo por entrar na brincadeira, dizendo que aceitei de vez minha condição de fraco. Janaína chega com suas amigas e as apresenta. Ana, cabelo curto, seios fartos, sorriso bonito, cara de espertinha. Priscila, não me chama atenção, apesar da extrema beleza de seu rosto. Ambas muito simpáticas, entram na conversa sobre futebol, já falando do jogo de amanhã.
A conversa rende bem, todos muito interessados uns nos outros. As novatas ficam tentando me dar bebida, aceito um copo de cerveja e nada mais. Os amigos antigos, em especial Carlo e Jana, ficam surpresos e no fundo orgulhosos de mim. De fato eu estou muito orgulhoso de mim por esta força, umas semanas atrás eu estaria pedindo todos os copos de todas as bebidas possíveis. A noite continua agradável, o papo extremamente feliz: futebol, fofocas engraçadas do trabalho, piadas, política, animais de estimação. Ana sendo muito simpática comigo, mais que Priscila, ou seria impressão minha?
Vou ao banheiro e me deparo com uma cena que há muito não via, meu rosto com o semblante bom, de quem está feliz. “Muito bom. Um ótimo início de final de semana, para uma excelente semana.” Sorrio honestamente e retorno à mesa. Chegando lá, Ana está onde Carlo se encontrava, ao lado de minha cadeira. “Moça bonita, e intelectual. Gosta de ser desafiada, e de sorrir por besteiras. Tá no papo.” Penso com meus botões. Sento ao seu lado, e começo a perguntar sobre o que ela faz. “Acabei de terminar curso de Farmácia, estou começando uma pós graduação.” “Mestrado?” “Isto. Tá bem legal, sabe?” “Inventa um remédio pra mim, que me deixa mais feio. Ou pelo menos um remédio que te deixa menos interessada em mim!” Ela sorri, chegando perto e encostando em meu joelho. Pronto, se eu quiser já consegui. Prossigo a conversa, até o ponto em que Jana e Priscila vão embora, e ficamos eu, Ana e Carlo no Bar.
Apesar de não estar com tanta vontade de ninguém no momento, meu instinto fala mais alto e acabo por ficar com Ana. Carlo vai embora, e eu sigo para casa com Ana. “Você é linda!” “E você sabe fazer uma mulher querer, hein?” Ela já está um pouco tonta, mas nada que a faça perder os sentidos. Não sou tão escroto quanto isto. Levo ela para minha casa, e da entrada já vamos para o quarto. As peles se encostando, as línguas se entrelaçando. Além de escitação sexual, era pra eu sentir algo, certo?
Enquanto estamos na cama, transando, começo a pensar nos últimos dias, penso na minha família, penso em Clara. Não há mais sentimento em nada, uma profunda depressão retorna à minha cabeça. Porque estou fazendo isso? Porque insisto em fingir prazer, em fingir felicidade? Se eu não estiver aqui, quem vai sentir falta? Meus pais e irmãos, óbvio, mas o tempo irá curá-los. O tempo não irá me curar. Todas as frustrações de minha vida, das últimas semanas, passam pelos meus olhos enquanto Ana está em cima de mim. Não há o que fazer. Penso: “Não há cura para isso, Marco, seu imbecil!”
Exatamente na hora em que gozo tomo a decisão. O prazer falso que externo para Ana, e o nojo que sinto ao gozar com aquela moça bonita por quem eu não sentia nada, facilitam tudo. Enquanto ela cochila, exausta, ao meu lado, olho para o teto e reflito sobre duas coisas. A primeira é em como deixar minhas finanças para meus pais. A segunda é que tenho que acabar com essa maldita hipocrisia que chamo de vida o mais rápido possível.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

3.


3.



Domingo é um dia morto, muitos dizem. Hoje está bem assim. Depois da noite de ontem, eu só queria isto mesmo: permanecer sozinho, em casa, tentando não pensar em nada, não ter a obrigação de conversar com ninguém. Almoço uma pizza Pif-Paf, de frango, tomando coca-cola, e ligo a TV. Televisão num domingo, em qualquer canal, aberto ou fechado, é um ruído branco que ligo enquanto vejo as “notícias” das redes sociais. Figurinhas engraçadas são o bastante para tirar o meu próprio pensamento sobre mim mesmo. Pleonasmo, mas é basicamente isto. “Se a humanidade fosse tão criativa para coisas ditas 'importantes' como paz e ciência, como é com humor de internet, estaríamos vivendo num mundo mais chato.” Pelo menos o tempo passa rápido com esta junção TV no domingo e redes sociais.
Logo antes do jogo de futebol, toca meu telefone. Tentam mais de 10 vezes, e eu decido atender. “Opa, beleza? Não vi tocando, tava no silencioso.” “E aí Marcão, bora tomar uma cerveja?” “Ah cara, num tô na onda não!” “Nem vem com essa, só umas cervejas de leve!” “Beleza Carlo, vou pensar aqui e te ligo. Abraço.De leve, sei. Sinto-me como se anjo e demônio lutassem por esta decisão. “Saio ou não saio?” O anjo vence, e em 20 minutos tranco a porta de casa rumo ao Bar.
Carlo, Janaína, Paulo e Luis estavam já com seus copos cheios e aquele sorriso bom no rosto. Parece que eu nasci para isto: mesa de buteco, galera conversando, cerveja gelada. Chego e sento junto ao Paulo, peço meu copo e entro na conversa. “E aí, o que tá rolando?” “Tamo falando de ontem, você se deu bem hein?“Foi legal, Jana. A moça era bacana.” “Você não deve nem saber o nome dela. Haha” “É Ana!Digo com um sorriso de canto de boca, no momento que meu copo chega. Tomo o primeiro gole de cerveja, saboreando com gosto o formigar que uma boa cerveja deixa na boca. Muito bom. “Mas e aí, o que rolou?” “Nada de mais, fui com ela pra casa, ficamos e ela foi embora. Foi até bacana. Mas e aí, o que vocês tão pensando pra hoje?Mudo de assunto rápido, não quero pensar na transa de ontem, muito menos no que eu pensava na hora. “Ah, vamo ficar aqui, tomar uma cerveja de leve, e depois tamo pensando em ir para o Space.” “Vamo ver... tô pensando em ficar mais quieto hoje.
A conversa gira em torno de futebol e política, excluímos o assunto trabalho e fofocas. Como estamos em tempo eleitoral, cada um faz uma boa observação sobre a cidade e o que os políticos da região poderiam ter feito. Janaína muda de assunto, falando do curso que ela pretende fazer. Acho interessante ela querer estudar, depois de tanto tempo sem entrar numa sala de aula. Eu nunca tive esta disposição para estudar. Conversar com a Jana é bom por vários motivos, dentre eles o nível alto da conversa, o cheiro, e principalmente os grandes decotes que ela usa. Vez ou outra ela me dá um tapinha para que eu olhe para seu rosto ao invés de seus seios.
Olho para o relógio, duas horas que estamos aqui, e penso em mandar mensagem para a Clara. Sempre ela, sempre. Percebo que estamos começando a ficar alterados, tanto pelo desejo que tenho de falar com Clara quanto pela quantidade de sorrisos e papos atravessados que estamos envolvidos. “Vou mandar mensagem pra Clara!” “Você tá doido? Fica ativo, me dá logo este celular.” Pronto, sem celular. Carlo me salvou dessa. “Ô garçom... traz uma cachacinha boa pra gente?” Vou aproveitar. “Bora pro Space daqui a pouco!!!Gritos de alegria. A sensação que a cerveja dá é fantástica. Liberdade, alegria, poder. Tomo a cachaça sabendo que a noite vai render, e que vou passar do limite. Fico alterado rapidamente, com energia para ir ao Space.
Discotecas não são meu habitat natural, mas do jeito que estou vai ser bom. No Space, peço uma cerveja logo na entrada. Paulo, Luis e Carlo estão na pista, e fico no balcão com Jana, conversando. “Hahaha... acho que tô meio ruim já.” “Não, eu tô tranquila. Vou vigiar vocês.” “Meu celular? Onde ele tá?” “Tá com o Carlo, relaxa.” “Garçom, me vê um estanrreger aí.” “Ele quer um steinhaeger!” “Isso mesmo que eu quero. Hoje vô ficar ruim.” “Mais?Viro a dose de steinhaeger, muito bom. “Cadê a Clara?” “Marcão, esquece a Clara.” “Tá.Vejo uma moça bonita e vou conversar com ela. “Oi, tudo beleza?” Balbucio o que posso, não estou conseguindo falar direito, muito menos pensar. “Cara, você tá tonto demais. Não me enche, ok?” “Tá bom, feia. HahahaPeço outra cerveja, mas não vejo a Janaína mais. Ela deve ter ido pra pista, então sigo para lá, tropeçando em algumas pessoas.
Chego na pista e vejo a Jana conversando com outra mulher, bem no canto, escondidas. Tenho que olhar mais de três vezes para acreditar. Será a bebida ou estou enxergando direito? “Clara, que cê tá fazendo aqui?” “Marco, você tá muito bêbado, não quero conversa com você.” “Marcão, vai lá pro balcão, já tô indo te levar pra casa.” “Jana, tô tranquilo, quero bater papo com Clarinha. Clarinha, 'xa te falar no ouvido...” “Marco, não quero conversar contigo. Jana, leva ele, depois te explico e a gente conversa.” “Peraí Clara, tenho que te falar uma coisa. Decidi ontem. Cê vai gostar! Hahaha” “Marco, não encosta mais em mim, não quero conversar. Jana, por favor.” “Clara, deixa eu te falar e te dar um beijinho de despedida? Hahaha” “NÃO!!!Meu rosto agora está queimando, e tem uns caras que nunca vi me arrastando. “PORRA, o que tá rolando? PORRA! CLARA!” O segurança me jogou na rua, não estou entendendo nada. Janaína me arrasta para o carro dela, me xingando e falando que era pra eu deixar a Clara quieta. “A Clara me ama, Jana! Hahahahaha”
Jana e Carlo me deixam na cama, depois de molharem meu cabelo no chuveiro, ambos falando que eu estou errado. Não entendo onde estou errado, ela gosta de mim. Carlo deixa meu telefone do lado da cama, tento pegar pra ligar pra Clara, mas meu braço e meu olho estão pesados demais. A bebida me consome.

sábado, 9 de agosto de 2014

Capitulo 2

Se alguem leu o 1, aí vai o 2...

 2.


    Ressaca somada a uma segunda-feira é um conjunto esmagador. Olhos marejados, nariz escorrendo vômito, olho para a privada e vejo uma mistura de fluido estomacal com uma bolinha de sangue. De duas uma: ou a força que fiz para vomitar estourou vasos no esôfago ou é só mais uma etapa do meu corpo pedindo por clemência. Depois de um banho longo, onde eu tento lembrar o que tinha feito ontem de noite, vou à cozinha e encho um copo de coca-cola gelada. Uma sobra de pizza gelada reveste o que sobrou de meu estômago e visto-me para o trabalho.

    “Cara, o que rolou ontem?” Alguns flashes passam pela minha cabeça. Risos, mulheres, amigos, amigas, copos, cerveja, um tapa, cachaça, talvez vodka (ou seria steinhaeger?). “Será que  fiz algo com alguém?” A ressaca moral, aquela estranha sensação de ter conversado algo inapropriado com uma pessoa, faz com que eu acorde dos meus sonhos da noite anterior quase no instante em que esbarro meu carro no do cara que está me xingando. Sei como começou, sei de algumas coisas durante, não sei como cheguei em casa. Péssimo. Pelo menos desde sábado já está tudo decidido. Então, que se foda o que fiz e com quem fiz.

    Chego no trabalho, atrasado, olheiras profundas. Todos sabem, provavelmente pelo aspecto e pelo hálito, que estou de ressaca. Converso pouco, tomo café, olho para a cara de cada um e cada uma com um nojo estupendo, que faz minha cabeça rodar e lembrar da bola de sangue na privada. “E aí Marco, ressacão hein?” “Pois é, Carlo... hoje tá difícil!!!” Única frase que consigo dizer sem ter ânsia de vômito. Enquanto eu respondia, alguns sorriam ironicamente, outros companheiramente, e algumas pessoas fechavam a cara. Diziam-se amigos e amigas. Eu não sentirei falta alguma de nenhum. Mesmo com esta maldita ressaca, insisto em prestar atenção. As conversas, sempre as mesmas: 1) “Hoje tá ______, hein!” Coloque no espaço as seguintes palavras: frio, quente, chovendo, seco. 2) “Você viu ______? Ficou com _______, aquele(a) _______! Deu vexame!” Coloque nomes masculinos e/ou femininos, e adjetivos pejorativos no final. 3) “________ morreu!” Nome do(a) último morto(a) do fim de semana. 4) “Você viu a treta de _______?” Nome de algum(a) ator ou atriz famoso(a). E assim por diante. Nada além  de futilidades. Pela primeira vez no dia dou um sorriso sincero. Muito bom.

    Vou para minha sala e decido trabalhar pesado. Durante o dia, deixo toda a papelada pronta para amanhã, toda a imprestável burocracia praticamente resolvida. Sem almoço e saindo da sala apenas para ir ao banheiro, termino o dia no site do banco, movimentando as últimas contas e deixando no computador os dados para a transferência de amanhã. Pronto, mesmo movido a neosaldinas e com a cabeça estourando, consigo deixar tudo resolvido para a manhã de terça-feira.

    Entro em casa aproximadamente às 8h30m da noite, depois de passar na padaria. Tomo um banho, melhor que o da manhã. Faço um café e como pão com presunto e mussarela. Muito bom. Tudo está caminhando bem. Deito em frente à TV, está passando South Park: “Friendly faces everywhere. Humble folks without temptation.” Hahaha. Muito bom. Ligo para minha mãe. “Oi mãe, tudo bem?” A melhor voz do mundo responde, e dispara a falar: “Oooiii meu filho, tudo bem com você? Seu pai tá aqui mandando um abraço. E as coisas no trabalho?” “Tudo ok mãe...” “Aqui também tudo bem. Seus irmãos tão na mesma, trabalhando. Os filhos do Mateus estão dando um trabalhão, tiraram nota baixa. Mas estão lindos, uma benção...” Paro de prestar atenção no assunto, agora pra mim só existe a voz. Maternal seria redundante, mas é o único adjetivo. Sinto-me bem, livre, em paz. Ela passa para meu pai, ele começa a falar sobre o carro que deu problema e sobre os gols de nosso time, mas novamente eu não presto atenção. Sorrio enquanto ouço a voz dele, ao mesmo tempo que lágrimas de felicidade plena descem pelo meu rosto. “Beijo pai, passa pra mãe. Mãe, beijão. Amo vocês. Dê abraços em todos.”

    Desligo. Mais lágrimas.

    Está tudo certo.

    Amanhã.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Apenas uma coisa que to pensando em escrever...

To com uma ideia pra escrever, mas ia demandar tempo/disposição... tipo de uns 45 ou 60 desses "capitulos"... enfim...


1



Acordo com o despertador tocando. Levanto, passo em frente ao espelho – a cara está até bem bacana – e vou direto para o banho. Dispu-me, analiso a saliência da barriga e sorrio. No box, deixo a água correr enquanto me apoio na parede. Uma das coisas boas da vida é deixar a água do chuveiro cair forte na nuca, não há pensamento algum, apenas a força da água na pele. Ensaboo-me, massageio o cabelo, mais água. Seco o corpo por completo, vou ao quarto e visto a roupa para o trabalho. 
 
Mas antes, um café da manhã caprichado. Pão dormido, manteiga, café forte, leite frio. Muito bom. Outra coisa boa da vida é comer um bom café da manhã. Enquanto lancho, ouço as notícias na rádio. Bombardeio no oriente médio, inflação, alta do dólar, corrupção, pausa para o futebol. Acho engraçado quando ouço José Simão e sua série “Os predestinados”: o dono de uma funerária que se chama João Boa Morte. Hahaha. Predestinados.
Pego o carro, e dirijo para o serviço. No shuffle do carro, um bom rock. Jimi Hendrix seguido de Secos & Molhados. De repente começa Echoes, do Pink Floyd: “Overhead the Albatross hangs motionless upon the air.” Sorrio. Uma das coisas boas da vida é ouvir um bom rock. Chegando ao prédio onde trabalho, dou meus cumprimentos a todos. “O dia está lindo, não é?” Todos parecem felizes, mas não tanto quanto eu. Há muito tempo não me viam tão bem com a vida. Uma das coisas boas da vida é trabalhar com o que se gosta. Converso com os e as colegas, falamos de amenidades, política e sobre quem foi assaltado no dia anterior. Contamos uma piada e gargalhamos. É um bom dia.
Em meu escritório, preparo todas as coisas. Este sim é um dia produtivo, não quero deixar absolutamente nada para depois do almoço. Consigo realizar todas as tarefas, e até algumas que seriam para a tarde. Assim que as termino, entro no site do banco, e faço a transferência para meus pais. Não deixo um centavo sequer na conta, não necessito mais.
Assim que chega a hora do almoço, subo as escadas e chego ao parapeito. Não há hesitação. Salto. Durante a queda, penso em várias coisas. Nas coisas boas principalmente. Em todas elas, todas. O vento batendo no corpo me dá uma sensação divina, sinto-me como o albatroz de Echoes, o ar em meu rosto me deixa mais feliz ainda. 
 
Não sinto medo, não sinto nada. 
 
Antes de tocar o chão, sinto o cheiro de meus pais. Perfeito.

Muito obrigado.

Até breve.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

De Marchiori para Edinaldo

Nao sei porque sentimos saudade, muito menos saudade de pessoas que nao vemos ha tempos, que sequer nos comunicamos mais. Esses dias senti saudade do Edinaldo. Grande amigo, grande físico, grande jogador de futebol. Uma homenagem do Marchiori, que encontrei no orkut. Abraços

"Não pude sofrer por ti, amigo,
mas o traço que te dedico
tem a marca do meu semblante, 
do meu pezaroso sorriso,
da dor que insiste em me derrubar.
Se, em minhas mãos,
coubessem infinitas palavras, 
existiria, ainda, nesses versos uma lacuna,
uma vazio preenchido pelo silêncio
e pela falta que você nos faz.
O tempo agora é seu
e teus olhos miram o que te faz maior.
Se o vento te alcançar com estes versos, saiba:
A bondade tem seu nome
e a saudade o nosso, sempre."

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Reflexões sobre a greve das IFES [2]


Visão MINHA sobre o que rolou sobre isso tudo de greve!

E aí, o ANDES sinalizou pelo fim da greve, haverá assembleia em Viçosa, e dia 24 a aula deve voltar (coloco o "deve" pq ainda temos que aguardar a assembleia e o calendário, mas é 99,9% de certeza). E agora, quem poderá nos defender?

O que aconteceu nessa greve?

No início eu fui um dos que mais apoiei o movimento, tanto dos profs quanto dos estudantes (por exemplo isso que escrevi dia 18 de maio, ildiagonale.blogspot.com.br/2012/05/reflexoes-sobre-greve-das-ifes.html). Achei de verdade que com essa greve poderíamos resolver parte dos problemas de infraestrutura que nós (e outros Campus) temos. Mas, com o decorrer da greve notei que sempre foi uma briga por carreira, que nosso problema de infraestrutura é mais um problema interno do que com o MEC (nosso caso com nosso Campus e com Viçosa).

Vários disseram que o governo foi intransigente, e isso é verdade. Porém, o sindicato também foi MUITO intransigente. Houve tentativa de flexibilização da proposta do sindicato somente depois de 2 meses de greve. A greve se tornou uma briga partidária, entre os dois sindicatos, ANDES e PROIFES, e o governo. Uma briga feia e mesquinha entre partidos políticos.

O que os profs ganharam?
- Um aumento que repõe a inflação, em 3 vezes até 2015 (há reposição salarial sim, quem fala que não há nunca tentou fazer as contas de forma imparcial).
- Uma carreira que retirou algumas barreiras de titulação, que colocou alguns critérios obscuros do MEC, etc.
- E mais nada.

O que os estudantes ganharam?
- Nada.

Essa greve mostrou muita coisa pra mim, principalmente que não posso (nem quero) confiar em sindicato e líderes sindicais (consertando: em líderes sindicais da ASPUV), que não posso confiar no governo, nem na mídia. Tá difícil, mas é assim.

As aulas vão voltar, o calendário vai ficar apertado, e vamos continuar lutando. Minha luta hoje é outra: luto pelo fim da greve da hipocrisia (como foi essa), e se depender de mim meu Campus não entra em greve mais. Tenho a certeza ABSOLUTA que mobilizo e faço muito mais dentro de sala do que em greve.

E principalmente vou lutar SEMPRE pela melhoria das condições de trabalho de meu Campus, mas vou fazer isso trabalhando, e não em greve. Vou continuar mobilizando os estudantes pra procurar o melhor pra eles.

Enfim... essa greve me mostrou o tanto que fui ingênuo ao acreditar que um movimento sindical iria de fato lutar pela educação.

Abraço,

leo

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Reflexões sobre a greve das IFES

Oi. Joia?

Essa semana foi agitada, com paralisação e deflagração de greve por mais da metade das IFES (instituição de ensino superior) do Brasil.

Os motivos podem ser resumidos em 4 principais:
-reajuste salarial;
- incorporação das gratificações no vencimento básico;
- unificação/equiparação das carreiras EBTT (ensino básico, técnico e tecnológico) e MS (magistério superior);
- reestruturação da educação superior no Brasil, com estruturação física e humana dos Campi.

Os primeiros 3 pontos são pontos de carreira docente, que influenciam nos rumos do ensino superior do Brasil, diretamente. A valorização dos docentes no Brasil é baixa, principalmente do docente básico estadual e municipal, que na minha opinião deveriam ser vistos como bandeira pelo magistério superior. O profissional sendo valorizado, trabalhará com mais motivação. Tanto motivação salarial, quanto de progressão na carreira (que são as reivindicações dos 3 primeiros pontos).

O 4o ponto é um ponto ideológico. Já me convenceram que com uma greve não conseguiremos imediatamente a estruturação tão desejada. Então o que fazer? Podemos, por exemplo:
- exigir uma promessa do aumento da porcentagem do orçamento de 2013 para a Educação.
- exigir uma proposta de REUNI 2 (a missão?), para consolidação dos Campi criados com o módulo 1 desse filme. (Dizem que o segundo filme não será lançado tão cedo...)
- propor ao governo investimentos em salas de aula e contratação de docentes e técnicos para suprir nossa atual demanda.

Mas, na minha modestíssima opinião, o que devemos fazer é o seguinte:
- jogar na cara da sociedade a situação atual, de inchaço das turmas, da falta de estrutura física que temos (não há laboratórios, não há livros, não há papel higiênico, não há calçada, etc), da falta de recursos humanos (não há professores suficientes, não há técnicos suficientes, etc). Este quarto ponto, ideológico, só terá força com a ajuda da população. Os 3 primeiros pontos são do sindicato;
- assumir que fizemos um programa de REUNI péssimo. Pensamos antes na $$$ que viria, e depois nas consequências do programa. Não pensamos em quanto seria efetivamente gasto, e subfaturamos (estranho isso com sub de prefixo) o orçamento necessário. Subfaturamos a quantidade de docentes e técnicos que seria necessária.
- pensar seriamente no futuro da educação no Brasil. Somos, sim, a nata intelectual da nação. Pensadores, mestres e doutores que foram treinados no estado da arte de qualquer área do conhecimento. Temos a capacidade de ampliar o leque de nossa mente e pensar racionalmente em vários setores. Temos o DEVER de pensar e procurar soluções (no plural) para o que está por vir. Devemos pensar se o REUNI foi bem vindo, e se as metas do mesmo são efetivamente alcançáveis, ou se serão algum dia se exigirmos QUALIDADE na educação. Devemos pensar nos critérios da CAPES com relação à pesquisa, se a quantidade em detrimento da qualidade é bem vindo agora (eu acredito que em anos passados sim, aumentar a quantidade "sem se preocupar com qualidade" do trabalho, foi um tanto quanto importante). Devemos melhorar o contato contemporâneo entre Universidade e Sociedade, hoje inexistente em muitos casos.

Devemos pensar nisso tudo e frear, realmente, um avanço se ele for maléfico pra qualidade do ensino, da pesquisa e da extensão.

Concluindo: devemos pensar, e tentar propor soluções pra tentar melhorar a educação superior do Brasil, melhorar as licenciaturas, valorizar as licenciaturas, os profissionais e as áreas de humanas para tentar "produzir" professores capazes de ensinar com qualidade. Procurar e propor soluções pra melhorar a educação no Brasil. Podemos fazer isso sim, se o governo e o MEC vai escutar, não sei, mas podemos fazer a sociedade escutar. A internet tá aí pra isso.

Enfim... fica a dica: pense.

Abraço,

L

terça-feira, 1 de maio de 2012

Idade

Oi. Joia?

À medida que você vai ficando velho, vai percebendo algumas coisas... não, não to mais comodista não, longe disso.

Olho pro espelho e vejo um semblante caído: olhos cansados, pele desgastada, rugas, olheiras, corpo decrépito, expressão triste, ou com um sorriso falso, que mostra, a quem quiser e tiver coragem de ver, toda a podridão, secura e frieza interiores, todo o desgosto de (não)compartilhar o que, pelo menos em princípio, eu entendo por ser felicidade. Mas este desgosto todo não se faz só em tristeza, todas as rugas, todas as olheiras, toda a podridão se torna felicidade quando penso no que aprendi, no que tento transmitir de bom (pelo menos no meu conceito de bom) pra qualquer pessoa, independente de classe. Tudo o que fiz de errado e tento melhorar, todas as pessoas que continuam em minha vida me fazendo bem, mesmo tendo vivido maus bocados comigo, mostram que as rugas, olheiras, etc. têm seu lado bom. Talvez a ideia de tudo seja fazer esse lado bom superar esse lado podre. Talvez...

Happiness only real when shared... :-)

Bjotchau

Leo

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ficção

Oi, joia?

Vivemos num país ilusório. Pagamos impostos, pagamos caro por bens de consumo, por bens duráveis, por tudo. E pagamos impostos para tudo: educação, segurança, estradas, trânsito, saúde, etc.

Mas vivemos numa situação de ilusão, pelo menos na maior parte do tempo:
- Nossa segurança é fictícia, a qualquer momento você está sujeito a ser assaltado ou morto, e a polícia faz vista grossa ou não tem condições de nos dar segurança;
- Nossa educação é uma ilusão, pessoas com ensino médio não sabem quais são as três leis de Newton, não sabem fazer contas de denominador comum, não sabem geografia e política básicas. Nosso ensino superior está inchado e com perspectivas pequenas de pesquisa avançada;
- Nossa saúde é de mentirinha, de fato não temos acesso a saúde pública, temos que pagar por um plano de saúde se quisermos um pouco menos de ilusão, visto que os planos prezam a saúde deles, e não a nossa;
- Nosso sistema de trânsito é uma ilusão, nossas estradas são ridículas, as leis de trânsito não são seguidas, e são burladas por todos e todas;
- Por aí vai...

Nós pagamos pela administração pública, mas ela não nos retribui com nada.

Nossos políticos vivem de ilusão. Da nossa ilusão.

Nossos políticos são corruptos, e assim também somos nós, admita!

Única coisa que não é fictícia no brasil (sim, letra minúscula) é o comodismo e a falsa liberdade de imprensa e de expressão que temos, regada a cerveja e cachaça.

Está na hora de fazermos algo. E não é só ficar no computador reclamando. Dia 21 de Abril de 2012. Ano de 2012, eleição. Ano de 2014, copa/eleição.


Abra os olhos! Fuck the system!

terça-feira, 20 de março de 2012

Mulheres...

Oi. Joia?

Li isso no facebook esses dias (de Balzac): "'Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (...) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer."



Achei bacana, muito generalista (se bem que podemos pensar na idade de 30 anos citada acima metaforicamente), mas bacana. Dai, na discussão que rolou, surgiu um papo de descrever "a" mulher. Pensei no assunto, e cheguei à conclusão que é impossível.


De cara pode-se pensar numa ideia da aparência de a mulher, depois se pensaria na afinidade, depois na atitude, etc, etc, etc, mas isto é muito relativo. Depende do momento, depende da situação, depende do contexto, depende do convívio. Ok, ok: peito + boca + beijar bem + coxa grossa + sexo gostoso = delicia, delicia, assim você me mata. Mas não é disso que to falando.


Enfim, pra ser sentimentaloide e não perder o costume, o que seria PRA MIM a mulher: "a" mulher, é aquela que vai me fazer querer dar satisfação da minha vida para ela, desde as coisas mais bobas até as mais importantes, sem que ela peça por isso (pode parecer pouco, mas nem é... pode parecer egoísta, mas nem é... mas nunca que é...). Estereótipos, ideologias, aparência, papo cabeça, inteligência, idade, isso tudo à parte, quando isso acontecer (se é que irá acontecer de novo), terei achado a dita cuja.


Bjotchau


Leo

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Rocky Balboa

"O mundo não é um mar de rosas; é um lugar sujo, um lugar cruel, que não quer saber o quanto você é durão. Vai botar você de joelhos e você vai ficar de joelhos para sempre se você deixar. Você, eu, ninguém vai bater tão forte como a vida, mas não se trata de bater forte. Trata-se de quanto você aguenta apanhar e seguir em frente, o quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando. É assim que se consegue vencer.

Agora se você sabe do teu valor, então vá atrás do que você merece, mas tem que estar preparado para apanhar. E nada de apontar dedos, dizer que você não consegue por causa dele ou dela, ou de quem quer que seja. Só covardes fazem isso e você não é covarde, você é melhor que isso."

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Face

Como eu tinha retirado esse texto (já modificado) do blog, vou retornar com o mesmo. Primeira coisa que escrevi, em 2009.

Bjonaomeliga

FACE

"Ao acordar, com a cabeça estourando – provavelmente ressaca por ter bebido muito vinho.... ele realmente acreditava que a bebida tinha efeitos afrodisíacos – sentou do lado direito da cama. Olhou para o lado e sua esposa estava lá, encoberta pelo edredom. “Nunca mais eu bebo!!!!!!!” pensou, cinicamente. Levantou-se, muito devagar para que seus tímpanos não explodissem, e foi ao banheiro. Lavou o rosto, com vergonha de olhar para o espelho. Tentou se lembrar do rosto de sua esposa, e a lembrança demorou a chegar... este foi o primeiro sinal. Escovou os dentes, ainda sem olhar para sua face – se olhasse sentiria vergonha: os olhos com uma coloração vermelha-amarelada, olheiras profundas, pele pálida e ressecada... típico para uma pessoa de ressaca, porém não era somente isso... havia também a superfície de seu rosto... ainda havia uma pessoa ali.
Foi à cozinha preparar seu café, mas antes, vestido apenas de cueca, foi ao encontro de sua esposa, a única pessoa que ele realmente amava, e lhe deu um beijo na testa. A mulher respondeu com um sorriso, puxando o edredom para perto de si, e um gemido como quem diz: “Hum, deixa eu dormir mais um pouco, meu bem!!!” Ele sorriu e nesse momento acreditou que sim, o amor pode existir e existe. Acreditou que o ser humano, ou ele próprio, podia confiar noutro incondicionalmente. E isto o alegrou.
Chegando à cozinha, ligou a TV para ouvir o noticiário. Escutou o presidente falando que o país iria sair da situação econômica crítica que se encontrava, que não haveria problemas. Pensou consigo: “Filho da puta, não tem vergonha nenhuma na cara!!!!” Ele não imaginava o quanto este pensamento, a princípio ingênuo, seria tão real.
Foi ao quarto, se vestiu e dando outro beijo em sua esposa saiu para o trabalho. De carro, observando os outdoors ficou pensando: “Quanta gente trabalha mal... todas as rostos estão desfocados!” Este era o segundo sinal. Chegando ao serviço não notou nada de estranho, ele sempre desviava o olhar das pessoas. Porém, ao encontrar com sua secretária teve seu primeiro surto. O rosto da mulher não somente se encontrava desfocado, mas totalmente desfigurado. Após o susto inicial, visível para todos que estavam ao redor, ele perguntou: “O que aconteceu com você? Quem te bateu? Vá ao médico AGORA!!!!!” Sem entender o porquê a secretaria perguntou: “Mas por que doutor? Estou normal, nada aconteceu comigo?” Ele entrou para seu escritório rapidamente, encharcado de suor, e baixou sua cabeça sobre os braços, pedindo para que ninguém o incomodasse.
Logo após sua entrada no escritório, sua secretária começou a falar com as outras pessoas: “Sim, ele é louco. Cumprimenta, é uma pessoa gentil. Mas não me dá aumento nenhum e ainda por cima fica dando em cima de mim.” A secretária apenas dizia que seu chefe a cantava para que ela ganhasse ‘elogios’ dos outros funcionários. Mais duas pessoas tentaram entrar em seu escritório: seu subordinado direto – que tinha compromissos irremediáveis a respeito da empresa, e puxa-saco de mão cheia – e seu chefe, que ficou preocupado pela reação do subordinado e da secretária. Além disso, seu chefe era uma pessoa extremamente arrogante e mesquinha, o que deixava nosso herói, na maior parte das vezes, furioso.
Ele decidiu voltar para casa depois que todos foram embora... a última vez que olhou para o rosto de sua secretária ele teve ânsias de vômitos.... várias. Foi para casa, evitando olhar para os outdoors, pois eles pareciam sempre mais desfigurados. As pessoas nos carros, estas também se aparentavam desfiguradas, com os rostos como se tivessem sido alterados num programa de computador. Apenas as crianças, a maior parte delas pelo menos, se aparentavam normais, com rostos, faces, de pessoas.... PESSOAS.
Chegando em casa hesitou em olhar para o rosto de sua esposa e aos prantos a abraçou. Ela sem entender tentou acalmá-lo, fazendo carinho e buscando um olhar para que compreendesse. Porém... nada. E assim se passaram longuíssimos 5 minutos, com ambos chorando compulsivamente. Após sua esposa implorar para que ele dissesse, ele olhou e viu: a mulher mais linda, o rosto mais lindo, a face mais linda, o corpo mais lindo, os seios mais lindos. Chorando e rindo ao mesmo tempo ele a beijou, como se fosse à primeira vez, um beijo longo, quente, apaixonado. E ali, onde estavam se amaram.
A noite que se seguiu depois do êxtase de gozo de ambos foi tranqüila. Dormiram como pedra. Na manha seguinte, ele acordou como de costume, olhou para sua esposa, que se encontrava coberta pelo edredom. Pensou seriamente que o dia anterior foi um sonho. Foi ao banheiro, e mesmo tendo a certeza do sonho, vacilou ao olhar para o espelho. Olhou e lá estava ele, com um rosto muito melhor que o do dia anterior. Neste dia não beijou sua esposa antes de preparar o café.
Tomou seu café como de costume, foi ao trabalho e novamente os outdoors estavam todos embaçados e desfigurados. Suando feito um porco devido à alucinação ele chegou ao trabalho e viu que todos estavam desfigurados. As faces horríveis, como que se despedaçassem da cabeça... a pele desfigurada, o nariz torto, se confundindo com o espaço onde antes devia estar a boca. No lugar da testa estava a boca... mas não uma boca normal, uma boca grande, com vários dentes, como se fosse a boca de um tubarão. Os cabelos estavam normais, apenas a feição estava diferente. Assustado e suando horrores, ele correu para sua sala, gritando para sua secretária – que apontava para ele e fazia gestos que ele estava louco – para não deixar ninguém entrar. Pediu dispensa do seu chefe, que muito a contragosto o deixou ir para casa.
Chegando a sua casa, indo numa mistura de velocidades, olhou para sua esposa e a viu! Gritou e chorou novamente, e ela, sempre cúmplice, chorou ao ver seu amado em tal situação. Ele pediu licença e foi tomar banho. Após um banho demorado, implorou que fosse deixado a sós. Foi ver televisão, e o espanto não foi o mesmo: todas as pessoas se encontravam desfiguradas. Tanto políticos, quanto pessoas entrevistadas da rua, quanto os apresentadores. E todas da mesma forma: o rosto completamente desfigurado, como que por alguma forma de manipulação informatizada. Ficou sozinho, vendo TV, por três dias.
Sua esposa tentava fazer com que ele comesse, mas ele apenas pegava um biscoito aqui, outro acolá. Estava ‘entretido’ demais, vendo todos os canais de TV que podia ver, e comparando as faces. Todas desfiguradas. Para ele, apenas dois rostos se encontravam normais: o dele e o de sua esposa.
E assim nosso herói passou por três meses, isolado em sua sala de TV, vendo os programas... todos... insistindo que tudo aquilo era paranoia de sua cabeça. Ele tentou ir ao médico, que apenas lhe indicou medicamentos contra alucinações e calmantes, que de absolutamente nada serviram. Os psicólogos muito menos, não conseguiam explicação nenhuma para sua ‘paranoia’.
Seus amigos se afastaram, depois desses primeiros três meses mais nenhum aparecia, mesmo por que ao vê-los nosso herói os xingava e pedia, não ele não pedia... ele gritava e obrigava, que todos saíssem de sua casa, com seus rostos desfigurados. E nesses três meses ele concluiu algo: apenas uma pessoa merecia sua confiança, apenas uma pessoa era de respeito, apenas uma possuía caráter, apenas uma se preocupava realmente com o próximo, apenas uma (ou duas?) sentiam realmente o que era amar. Esta pessoa era a única que ele não via o rosto desfigurado: sua esposa. E isto fez com que ele a amasse ainda mais.
Um ano se passou. Sua esposa após os 10 meses da ‘doença’ do marido, começou a se afastar, a se tornar uma pessoa triste e agoniada. E nosso herói ainda a via, e isso ainda alegrava os dois. Ou pelo menos era isso que ele pensava. Um belo dia, um ano após sua repentina ‘alucinação’, nosso herói decidiu passear, pois sua esposa estava demorando muito tempo para trazer os mantimentos. Este tipo de atraso havia começado há uns dois meses, tempo em que o rosto da esposa começou a se desfocar.
Andando pela vizinhança, evitando os vizinhos, e estes o evitando, ele observou sua esposa, no supermercado, abraçada com um homem. Mas ela não estava somente abraçada, pedindo ajuda, ou conselho, e o homem não a estava consolando pelo flagelo do marido. Eles estavam se beijando, se abraçando, se amando. O que mais nosso herói podia fazer a não ser chorar?
Voltando para casa, com todas estas exclamações na cabeça, nosso herói chegou à uma bela conclusão. Foi ao banheiro, onde ele olhara a primeira face há um ano atrás, a sua própria face. Nas mãos uma faca, grande, afiada, pontiaguda. Olhou para seu rosto, para sua face. E sorriu... fincando a faca no peito. Menos uma face no mundo."

Viagem

Esse também eu tinha tirado do blog, o filho pródigo torna à casa...

VIAGEM

"Ela acordou com o senhor que estava ao seu lado pedindo licença, provavelmente para ir ao banheiro. Notou que ainda era dia, porém, com o nevoeiro denso que se encontrava do lado de fora era impossível ver qualquer coisa. As janelas estavam opacas para quem observava de dentro, tanto pelo nevoeiro quanto pelo fato dos vidros estarem embaçados. Ao retornar o senhor disse:

- Olá, acho que perdi o sono. Tudo bem com você?
Ela pensou consigo mesma “Vai começar a ladainha...” e respondeu:
- Sim, tudo bem. Também acho que perdi o sono.
- Estranho o ônibus não ter feito nenhuma parada ainda, não? Perguntou o senhor.
- Sinceramente não reparei, meu sono é pesado, se houve alguma parada não percebi.
- Teria percebido comigo pedindo passagem.
- É mesmo – respondeu a mulher num tom obviamente irônico – então não houve paradas.
- Desculpe te incomodar, vou tentar ficar quieto.
- Não se preocupe.
O homem se calou, mas ambos não conseguiram dormir. Estavam presos em seus pensamentos mais profundos, por motivos que ficaremos sabendo. No momento, basta descrevermos o ônibus em que se encontravam. Na direção se encontrava um senhor pequeno, sério, e calado. Este não pensava em nada, tinha apenas seu objetivo: levar as pessoas ao seus destinos. Os passageiros eram 8: a mulher e o homem citados anteriormente, ela solteira, de vida fácil e um tanto quanto ranzinza, ele casado, falante, engraçado e com saudade de seus dois filhos – ambos se encontravam no meio do ônibus, por assim dizer; logo ao lado deles estava um casal de idosos; duas fileiras à frente se encontrava um rapaz solteiro; ao lado dele uma mulher e sua criança; bem mais atrás se encontrava um outro homem, magro e pálido, com aspecto triste. Esta viagem é sobre a vida destas oito pessoas.
Ela olhou para o relógio, mas ele não estava funcionando.
- Malditas baterias, se o mesmo fosse de corda não haveria esse problema.
Perguntou as horas para o senhor, mas este não tinha relógio. “Viagem que não acaba, e ainda não paramos para esticar as pernas.” Pensou ela, já entediada. Viu que uma pequena agitação começava a aparecer no interior do ônibus, provavelmente pelo motivo da falta de paradas. A criança começava a resmungar quando o rapaz foi falar ao motorista. Alguns minutos depois ele voltou, pois mesmo sem relógios e maquinas podemos pensar no tempo passando, e talvez este seja o verdadeiro sentido de tempo... talvez. O rapaz então disse:
- É outro motorista. Fizemos uma parada rápida, não me lembro, estava dormindo. Este não conversa, apenas dirige. Muito estranho o caminho que ele esta seguindo, e o nevoeiro lá fora está muito, mas muito denso. Acho que o motorista pegou um caminho secundário, vou reclamar junto à empresa assim que chegar em casa.
Ela olhou de novo para fora, e o rapaz estava certo. O nevoeiro continuava La, deixando opaca a visão para o exterior. E assim os 8 passageiros permaneceram, todos acordados, durante trinta minutos. O leitor pode se perguntar como podemos medir a passagem de tempo neste caso, onde nenhum relógio está funcionando, e dai podemos perguntar: como você mede, ou sente, a passagem do tempo? Estes trinta minutos pareceram uma eternidade para todos os passageiros, e quando nenhum deles conseguia mais se conter, um diálogo começou.
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- Pois é...
- Pois é... tem chovido...
- Acho estranha essa neblina. Muito densa. E este motorista que o rapaz ali da frente falou que trocaram... muito estranho, não percebi nada durante a viagem.
- É... a neblina deve ser por conta do horário, ou da altitude. Disse ela, nosso primeiro pronome, que a partir de agora chamaremos de Lívia. Apesar de este ser seu verdadeiro nome, achamos correto dar nome aos bois... ou às vacas. 
- O rapaz ali da frente voltou um tanto quanto zangado da conversa com o motorista, não?
- É...
Lívia, nosso pronomegênito, era sim uma pessoa chata, de poucas palavras. Mas ela possuía suas razoes. Provavelmente, nós iremos saber quais são. Ou mais provavelmente o leitor irá descobrir quais são.
- Bom, vou ali conversar com o moço. Essa foi a última palavra de Marcos, que estava sentado ao lado de Lívia, antes de se dirigir à Paulo, o rapaz que estava logo à frente.
Peço atenção ao leitor para que fique atento aos nomes. Um autor uma vez disse que dentro de cada um existe algo sem nome, e que isto somos. O que estou dizendo é que, na verdade, o que somos está intimamente ligado ao que representamos. E a representação mais digna, não que seja real, é a de nossos rótulos. Assim, por mais que seja chato, e enfadonho para ser mais prolixo, temos que rotular nossos personagens. Nomes... sendo futilidade ou não, são coisas necessárias.
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Marcos se levantou, e com dificuldades, devido aos solavancos e curvas da estrada, chegou próximo a Paulo. Este estava a olhar para a estrada. Não que a visse, o que era possível de se enxergar era o asfalto, a carcaça do ônibus, as linhas curvas que delimitavam o acostamento e a neblina. A neblina espessa, como se fosse uma nuvem intransponível.
- Olá. Tudo bem?
- Bem.
- Vi que você foi conversar com o motorista. Mudaram de motorista no caminho e eu nem vi!!!! Então, como está a situação ali na ‘cabine de comando’?
- O filho da puta não quis conversar. Ficou olhando para mim, e pra frente. Como se desse pra enxergar algo, com essa porra de neblina do caralho na frente.
Ao lado uma mãe tampava os ouvidos de seu filho, que continuava quieto, porém prestando atenção em tudo e em todos.
- Mas ele não falou nada? Sobre mudanças no caminho ou sobre o porquê da mudança de motorista?
- Nada, o viado ficou lá, olhando para frente, de vez em quando olhando para mim e retornando para a direção. Estou puto com isso. Vou ligar para o 0800 quando chegarmos.
- Calma, temos quanto tempo de viagem? Umas 3 horas? Vamos parar daqui a pouco para esticar as pernas, e daí conversamos com o motorista. Pois então, você trabalha com o que?
- Trabalho com manutenção. Estava indo pra cidade desta merda de ônibus para consertar um aparelho, mas... estou vendo que não vai dar tempo. MERDA!
Marcos viu que a conversa com Paulo não levaria a lugar nenhum. E decidiu conversar com Paula, uma coincidência não tão coincidente.
Paulo continuou a reclamar, olhando para a neblina densa que os cercava, e assim Marcos começou a conversar com Paula, notando que na parte de trás do ônibus um murmurinho também começou.
- Ola, pessoal ta nervoso, não?
- É. Mas também pudera, a viagem não está simples. Acordei, eu e meu menino, há pouco. O Paulo está bem nervoso mesmo, queria chegar rápido, mas... fazer o que não é mesmo? Eu não estou me sentindo nervosa, mas uma ansiedade estranha, isso sim. Neblina estranha.
- Então você conhece o colega ali do lado?
- Sim, é o pai do meu filho.
- Hum, casados há muito?
- Casados há muito?
- Casados sim, separados há pouco.
- Mil perdoes, não poderia saber disso.
- Não se preocupe, continuamos bem, é bom pro moleque.
O moleque continuava prestando atenção em tudo e em todos. Mais ou menos no mesmo instante que Marcos e Paula começaram esta simpática conversa, o casal de idosos também iniciava um dialogo entre eles, e tentaram conversar com Lívia e o doente.
- Maria, cochilei, como você esta?
- Bem! Também cochilei. Tempo feio lá fora não é?
- Sim, sim! Neblina forte. Você não acha moça?
- Uhum!
- Você lembra nossa filha!!! Como você se chama?
- Lívia...
- Prazer, sou o José, essa é minha esposa Maria. Não parece com a Carla, Maria?
- É mesmo. Parece muito. Até o jeitão marrento. Disse a senhora com os olhos afogados em lagrimas.
- Mas vocês moram juntos? Quer dizer, o Paulo esta indo trabalhar noutra cidade... como vocês estão no mesmo ônibus, mal lhe pergunte?
- Nos encontramos sem querer na rodoviária, estou indo visitar uma amiga, que pediu pra eu levar o moleque pra ela conhecer. Amiga da época de escola, muito legal! E você, esta viajando a trabalho também?
- Não, na verdade vou ver uma amiga. E desconversou.
- Não ligue para minha esposa, ela fica emotiva. A Carla faleceu há um tempo. Quando comentei que você parece com ela até arrependi. Mas a verdade é que realmente parece.
- Que pena, meus sentimentos por vocês. 
Todos iremos morrer, pensou friamente o doente no final do ônibus. Ainda calado, mas atento.
Lívia se simpatizou pelo casal, talvez por eles também lembrarem seus pais. Este foi um bom momento para nosso primeiro pronome, visto que ela nem se lembrava dos rostos dos pais desde que saiu de casa, um tanto por vontade própria, outro tanto por ter sido expulsa.
- Mas vocês vão pra onde mesmo?
- Estamos indo passear, dizem que nas redondezas da cidade existe um SPA para pessoas da ‘melhor idade’. Brincou José.
- Sim, existe sim. Já ouvi falar e dizem que é muito bom. E não só para a 3ª idade!! Disse Lívia, mostrando o sorriso lindo que poucas vezes estampava sua face.
- Quem bom, estamos precisando de um descanso. E de repente um tempo para namorar. Ai! A expressão, seguida de uma piscadela para Lívia que a fez também ficar com olhos marejados, foi devido ao tapa que José levou da esposa pelo flerte publico que ela tinha recebido.
- Você conhece bem nosso destino? Quero dizer, a cidade, as pessoas, os lugares?
- Não. Respondeu Paula, achando estranha a vergonha que Marcos sentiu de sua pergunta anterior. Na verdade é a primeira vez que vou a esta cidade. Mas dizem que é bem legal. Espero que o moleque goste.
- Sim sim, a cidade é bela. Acho que vocês dois vão gostar. Especialmente você campeão!! E coçou a cabeça do menino, que a principio não gostou. Muito menos Paulo.
- Também não conheço, nem sabia que a Paula e meu filho iriam. Agora vou arrumar um tempo para ir a algum parque com o garoto e brincar com ele, já que a mãe não deixa em nossa cidade.
- Não é assim Paulo, você sabe.
Enquanto isso o garoto observava. Olhos de lince, ouvidos de morcego, cérebro de gênio. Ele começava a captar a mensagem do ônibus.
Os assuntos prosseguiram. As pessoas mudando, sem deixar de serem as mesmas. Se abrindo umas para as outras. Em breve saberemos um pouco, um resumo, do que cada um destes oito passageiros passou em sua breve estada nesta viagem.
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O motorista seguia, rumo ao destino final de todos. Sim, isto é tudo o que temos para falar dele.
Lívia era uma mulher linda, corpo escultural, inteligente e muito sensual. Talvez por isso fosse tão ranzinza, talvez por isso fosse prostituta. Iniciou a carreira com 17 anos, a primeira vez pela aventura, mas gostou do dinheiro, do cheiro do papel colorido que proporcionava a ela roupas e jóias. Muitos de seus clientes se apaixonaram por ela, inclusive um adolescente, que ela “descabaçou” quando ela 19 anos, já experiente. O garoto apaixonou, descobriu onde ela, com os pais, e fez o que qualquer adolescente faria: escândalo. Os pais descobriram, a expulsaram e nunca mais ela os viu. Mesmo se quisesse, ambos adoeceram e faleceram algum tempo depois. Uns dizem que foi por desgosto, outros por idade mesmo. Desde então Lívia tem feito os homens se apaixonarem por ela, devido ao seu esplendido desempenho na cama, à sua ginga, e principalmente ao fato de ela realmente saber fazer um homem se sentir homem. Podemos resumir sua vida assim: ela gostava do que fazia, e sabia fazer, tinha orgulho, mas não tanto, e queria sair dessa vida.
Paulo conheceu Paula na faculdade, ambos calouros, ambos crianças, ambos inexperientes, ambos apaixonados. O namoro durou muito, durante o período da faculdade, quatro anos. O moleque nasceu durante, com dois anos de relacionamento. Claro que isto atrapalhou os cursos, e claro também que atrapalhou o curso dela. Ele se formou. Eles se casaram. Eles não foram felizes. Eles se separaram, e desde então conseguem viver. Coisa que não faziam,quando estavam juntos, Paulo era violento e batia no moleque, e em Paula. Ela aceitava apanhar, desde que o garoto não sofresse. Mas ele via, ouvia, e sofria. Talvez mais que todos. Não, não era o garoto o culpado de tanta raiva, mas sim uma podridão interior que Paulo guardava, ninguém, nem ele mesmo, sabe de onde veio tanto rancor. Apensar disto, o moleque achava que a culpa era dele, e todos queriam sair dessa vida.
José e Maria, um casal clichê. Mas este casal era esplendoroso. Um amor incondicional, sem traições, com cumplicidade, com sentimento, com compreensão, com amor. Tiveram uma filha, Carla, que faleceu, vitima de solidão, depressão, desespero, infantilidade, como queiram. Desde então, José e Maria tem vivido como a filha, solitários. Viveram a melhor vida juntos, fingiam que continuavam vivendo com o mínimo de felicidade, mas queriam sair dessa vida.
Marcos era um homem casado, bem empregado, salários altos, com bens, propriedades. Um homem inteligente, brincalhão. Amado por todos. E principalmente por todas. Apesar de uma imensa vergonha que sentia, não conseguia ficar um tempo grande (por grande, leia-se alguns meses, dois por exemplo) sem trair sua mulher. Não caro leitor, sua mulher não era feia, era linda. Um corpo muito bonito. Inteligente, simpática, conversava sobre tudo, compartilhava as coisas sobre Marcos. Mas ele não se contentava. Seu corpo e sua mente o obrigavam a gozar dentro de outra mulher. Este era seu vício e seu prazer, e ele queria sair dessa vida.
O doente, este não nomearemos, pode ter qualquer nome. O passageiro doente era uma pessoa inteligente, era uma pessoa simpática, era uma pessoa amável, era uma pessoa querida, era uma pessoa cativante. ERA. Depois que descobriu sua doença ficou doente. Doente de cabeça. Preconceito de si próprio se iguala a qualquer tipo de preconceito. Ele tinha nojo de se tocar, tendo inclusive cortado as mãos devido aos socos que dava no espelho ao ver seu rosto pálido e magoado. Há quem diga que a pior doença dele, talvez a única, era a doença de sua mente. E ele, assim como os outros, queria sair dessa vida.
Desta forma contamos o resumo da viagem de nossos passageiros, uma viagem estranha, conturbada, e com um final feliz, por incrível que pareça.
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Prosseguiram a conversa por umas duas horas (note que este tempo vem da nossa imaginação, que os vemos por fora), neste momento as únicas pessoas que não conversavam eram o doente e o moleque.
Paulo continuava tentando ser simpático com o filho, ao mesmo tempo em que tentava ser antipático com a esposa. Nesse fogo cruzado estava Marcos, que se interessou por Paula, talvez devido ao fetiche dela ser mãe, e do ex-esposo estar tão perto. Às vezes Marcos jogava e a estratégia era ser o oposto do que Paulo era, o que agradava Paula, e ela demonstrava isso, principalmente para irritar, ou tentar reconquistar, Paulo.
Na parte de trás do ônibus, José e Maria estavam muito felizes por ter um pedaço de sua filha de volta, e Lívia feliz por ter um pedaço de seus pais de volta. Os três conversavam e riam como se conhecessem há muito tempo, e isto os alegrava. 
Num dado momento todos pararam de conversar e se entreolharam, todos os oito passageiros. Por um instante entenderam. E continuaram conversando. Mesmo os que não estavam conversando entenderam. 
Na verdade, o moleque, a criança, foi a primeira a entender. Mas não quis parar, não queria deixar de ver o pai e a mãe juntos, flertando, como que se gostasse de ver que eles ainda sentiam algo um pelo outro. Mas viu que não. Viu que tudo, em todos, em todos os oito, tudo não passava de um grande teatro. Um teatro verdadeiro, ele compreendeu. Era verdade que Lívia sentia algo pelos seus pais, era verdade que José e Maria sentiam muito a falta de Carla, era verdade que o doente era a pessoa doente que ele era, era verdade que Marcos flertava, que seu pai gostava dele, que a mãe além de amá-lo amava também o pai. Era verdade. Assim como era verdade que ele deveria ser a pessoa que mostraria a todos o que estava acontecendo.
Ele se levantou. Olhou para todos. Todos pararam de conversar, sabiam o que estava acontecendo, mas tinham medo. Olhou dentro dos olhos de cada um. Com a profundidade de quem diz: “Se cuidem. Entendam. Vocês tinham que ter sido mais, e melhores.” E disse:
- Eu vou.
O ônibus parou. A neblina ainda estava lá. Mas eles estavam enxergando. Ele saiu. Todos se olharam. Não estavam espantados. Não estavam mais com medo. O doente saiu logo após o garoto. Haviam finalmente chegado ao destino final."